LINGUAGEM MÉDICA
 

ANDROGÊNIO, ANDRÓGENO
ESTROGÊNIO, ESTRÓGENO


        Os termos acima foram introduzidos na linguagem médica na primeira metade do século XX para designar qualquer substância, natural ou sintética, dotada de ação hormonal, respectivamente sobre os caracteres sexuais masculinos e femininos.

        O termo designativo do hormônio masculino, androgênio ou andrógeno formou-se a partir do grego anér, andrós, homem + gen, raiz do verbo gennáo, gerar, produzir.

        Seria de esperar-se que o termo correspondente ao hormônio feminino se formasse de maneira análoga, a partir de gyné, gynaikós, mulher, de que resultaria ginecogênio ou ginecógeno. Tal não ocorreu, entretanto, e o termo criado proveio do latim oestrus (do grego oîstros), estro, com o sentido de cio ou excitação sexual.

        O fato se deve a razões históricas. Marshell e Jolly, em 1906, prepararam um extrato de ovário, que se mostrou capaz de despertar o cio em cadelas, dotado, portanto, de ação estrogênica. Ao isolarem o hormônio folicular em 1926, Parkes e Ballerly chamaram-no de estrina, donde derivam os nomes químicos dados aos hormônios naturais; estrona, obtido por Butenandt em 1929; estriol, extraído da urina de gestantes por Marrian em 1930; e estradiol, preparado por Schwenk e Hillebrandt em 1933.[1][2]

        Em inglês e alemão a raiz gen permanece inalterável (androgen, estrogen); em italiano e espanhol acrescenta-se a vogal o, variando a sílaba tônica (androgeno, adrógeno; estrogeno, estrógeno), e em francês, a raiz gen transforma-se em gène (androgène, estrogène).

        Em português usam-se duas formas: uma idêntica ao espanhol (andrógeno, estrógeno) e outra formada com o acréscimo do sufixo -io (androgênio, estrogênio no Brasil; androgénio, estrogénio em Portugal).

        Ambas as formas são corretas do ponto de vista linguístico e tanto se pode dizer androgênio e estrogênio como andrógeno.e estrógeno,  Seria desejável, entretanto, a permanência de apenas uma delas na terminologia médica.

        Os nossos léxicos não são uniformes em suas averbações. Deixando de lado os mais antigos e consultando apenas os mais modernos, encontramos as seguintes divergências:

        O Michaelis registra androgênio, mas não estrogênio, e considera andrógeno como adjetivo e estrógeno como substantivo e adjetivo.[3] No Aurélio século XXI, que consigna todas as formas, andrógeno é somente adjetivo e estrógeno somente substantivo.[4] Para Houaiss, andrógeno pode ser substantivo ou adjetivo e estrógeno apenas substantivo.[5] O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, por sua vez, averba estrogênio, mas não androgênio; andrógeno aparece com a dupla função de substantivo e adjetivo, enquanto estrógeno é somente substantivo.[6].

        É fato comum de linguagem que a mesma palavra possa ser ao mesmo tempo substantivo e adjetivo. O ideal seria, portanto, que os nossos lexicógrafos considerassem, de maneira uniforme, andrógeno e estrógeno tanto como substantivo (equivalente a androgênio e estrogênio) quanto adjetivo (equivalente a androgênico e estrogênico).

        Androgênio e estrogênio são substantivos aos quais correspondem os adjetivos androgênico e estrogênico. Andrógeno e estrógeno tanto podem ser substantivos como adjetivos. As formas androgênio e estrogênio (androgénio e estrogénio em Poartugal) têm a seu favor a similaridade com outros nomes científicos de formação mais antiga, como oxigênio, hidrogênio, nitrogênio, halogênio, carbogênio, etc.

        A forma esdrúxula com a terminação -geno é utilizada em qualificativos como patógeno, mitógeno, reflexógeno, etc. Adrógeno e estrógeno poderiam, assim, eventualmente, ser usados como adjetivos: hormônios andrógenos, hormônios estrógenos. Seria preferível, contudo, a meu ver, o uso alternativo de androgênico e estrogênico.

        A decisão final deve caber, naturalmente, aos endocrinologistas e ginecologistas.
 

Referências bibliográficas

1. SKINNER, H.A. - The origin of medical terms, 2.ed., 1961, p. 28.
2. TATON, R. (Ed.), Histoire générale des sciences, t. III, vol.2, 1964, p. 140.
3. MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998.
4. FERREIRA, A.B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1999.
5.. HOUAISS, A.VILLAR, M.S. - Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
6. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS - Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 3. ed. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1999.

 
Publicado no livro Linguagem Médica, 4a. ed., Goiânia, Ed. Kelps, 2011.  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br