LINGUAGEM MÉDICA
 

ANQUILOSE, ANCILOSE

        Uma das questões que afetam diretamente a terminologia médica, e de difícil solução, é a que diz respeito aos termos formados a partir de palavras gregas iniciadas por K ( kappa ou capa) e por X (khi ou qui).

        A letra K (capa) do alfabeto grego é representada em latim e em português pela letra C, tanto antes de consoante como de vogal. No latim a letra C manteve o som de K antes de qualquer vogal, porém, em português, o C tornou-se sibilante antes de e e i.

        Ex.: Kephalé, cabeça: cefálico, encéfalo
        Kinéo, mover: cinerradiografia, discinesia

        A letra X (khi) passou ao latim, e deste ao português, mantendo o mesmo som gutural do grego, sendo representado por C antes de consoante e das vogais a,oe u, e por Ch antes das vogais e e i. Na ortografia simplificada atual o som gutural Ch em português passou a ser representado por qui [1]

        Ex.: Xémosis[>] chemose [>] quemose
        Xíasma[>] chiasma [>] quiasma

        De acordo com estas regras teríamos de escrever ancilose, ceratite, cimógrafo, em lugar de anquilose, queratite e quimógrafo. E teríamos de mudar cirurgia para quirurgia.

        Aqui, como em tudo o mais em linguística, o uso se sobrepõe à norma. Além do mais, é questionável se uma palavra formada diretamente do grego deve adequar-se a uma imaginária passagem pelo latim.

        Nascentes insurge-se contra a forma ancilose nos seguintes termos: "A forma ancilose não se justifica. As formas modernas mantêm os sons do grego. É um absurdo querer fazê-las passar por uma evolução que não tiveram".[2]

        Em consequência do embate entre o uso e a norma, temos hoje formas paralelas para numerosos termos médicos, tais como queratina e ceratina, hiperqueratose e hiperceratose, anquilóstomo e ancilóstomo, hexoquinase e hexocinase, colecistoquinina e colecistocina, e muitos outros de formação análoga.

        Na escolha de uma ou outra forma devem prevalecer o bom senso e o respeito à tradição. Dificilmente um reumatologista ou um ortopedista concordariam com ancilose e, muito menos, com espondilite ancilosante. Ou um cirurgião gostaria de ser chamado de quirurgião.

        Hiperqueratose nos dá idéia de cornificação, de endurecimento (kéras, chifre), enquanto hiperceratose sugere antes amolecimento, à imagem de cera (kerós, cera).

        O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras, como sempre, registra as duas formas e deixa a opção por conta do usuário. Tal postura de neutralidade estende-se às palavras cirurgia e querosene, que também aparecem averbadas como quirurgia e cerosene [3]

        Houaiss recomenda o uso de c em ancilose, ceratina e seus derivados, porém registra apenas quimógrafo e não cimógrafo.[4]

        Somente o tempo poderá determinar a forma que irá prevalecer no futuro, em cada caso. Os linguistas são impotentes para direcionar a evolução da língua.

        De minha parte fico com anquilose, queratite, quimógrafo e cirurgia, mesmo contrariando as normas de formação das palavras derivadas do grego.
   

Referências bibliográficas

1. LOURO, José Inez - O grego aplicado à linguagem científica. Porto, Ed. Educação Nacional, 1940, p. 140.
2. NASCENTES, Antenor - Dicionario etimológico resumido. Rio de Janeiro, INL, 1966.
3. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS - Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 3. ed. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1999.
4. HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles – Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.


Publicado no livro Linguagem Médica, 4a. ed., Goiânia, Ed. Kelps, 2011.  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br
10/09/2004.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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