HISTÓRIA DA MEDICINA
 

ARTHUR NEIVA

INTELIGÊNCIA E CULTURA A SERVIÇO DA NAÇÃO


Nota de Direito Autoral:  O texto deste artigo foi publicado em 2009  no livro "À sombra do plátano" pela Editora UNIFESP. A reprodução do mesmo por meio impresso ou eletrônico requer autorização prévia da Editora [http://www.fapunifesp.edu.br fone: (11) 3369-4000]




        Dentre os pesquisadores arregimentados por Oswaldo Cruz para lançar as fundações da medicina científica no Brasil sobressai a figura ímpar de Arthur Neiva. O que mais o distingue entre seus pares é a sua versatilidade, sua capacidade de desempenhar com brilhantismo as mais diversas tarefas e funções, deixando em todas elas a marca de seu talento e de sua personalidade.
        Natural de Salvador, Arthur Neiva concluiu seu curso médico no Rio de Janeiro em 1903. Ainda como estudante participou da campanha contra a febre amarela. Recém-formado, trabalhou como auxiliar de laboratório e preparava-se para prestar concurso para Inspetor Sanitário quando foi descoberto por Oswaldo Cruz.
        Sua primeira missão foi a de combater a malária que grassava na bacia do rio Xerém, onde se realizavam os trabalhos de captação de água para o abastecimento do Rio de Janeiro. Nessa oportunidade, Neiva aprofundou seus conhecimentos sobre os anofelinos, descreveu uma nova espécie de mosquito e detectou a resistência do Culex à quinina, o que tornava insuficientes as doses até então empregadas.
        Em 1910 foi a Washington completar seus estudos de entomologia e, de regresso ao Brasil, motivado pela descoberta da tripanossomíase por Carlos Chagas, seu interesse se voltou para os triatomídeos. Fez uma revisão do gênero Triatoma, com ênfase nas espécies transmissoras do Trypanosoma cruzi. Este trabalho foi apresentado como tese à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1914, o que lhe valeu o título de Livre-docente, conferido pelo voto unânime da Congregação.1
        Em 1912, em companhia de Belisario Penna, realizou penosa viagem científica pelo interior do País, percorrendo durante sete meses o norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul do Piauí e de norte a sul de Goiás, a maior parte do trajeto em lombo de burro, dormindo ao relento ou em barracas improvisadas. O relatório desta viagem foi publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, em 1916, e constitui um marco na história da ciência brasileira pela riqueza de informações sobre os aspectos geográficos, clima, flora fauna, condições sanitárias e doenças do homem e dos animais. Retrata a realidade do interior do País, na época inteiramente desconhecida dos habitantes das cidades litorâneas, e causou um grande impacto às autoridades governamentais e à sociedade em geral, ao relatar as condições de atraso, pobreza, miséria, analfabetismo, doenças endêmicas e isolamento em que vivia a população na região por eles percorrida.
        Prevendo as críticas ao retrato desolador da realidade do sertão por eles descrita, assim se pronunciaram antecipadamente: "Não agradará certamente a franqueza com que expomos nossa impressão, mas julgamos ser isso um dever de consciência e de patriotismo. É indispensável dizer a verdade embora dolorosa e cruciante e não iludir de forma alguma a Nação..." 2
        Em 1913 esteve na Argentina, onde descreveu uma nova espécie de Triatoma e, em 1915, voltou a Buenos Aires, convidado a instalar e dirigir a Seção de Zoologia Animal e Parasitologia do Instituto Bacteriológico daquele país, onde permaneceu por dois anos, regressando ao Brasil a convite do Governo do Estado de São Paulo para assumir o Serviço Sanitário estadual.
        Em sua nova função elaborou o código sanitário do Estado de São Paulo contemplando não só as cidades como a zona rural, o qual serviu de modelo para outros estados. Em 1918 a epidemia de gripe espanhola atingiu São Paulo e coube a Arthur Neiva coordenar os trabalhos de atendimento à população, tendo improvisado 43 hospitais na capital e 119 no interior. Ele próprio foi vítima da epidemia.
        Em 1920 foi convidado pelo Instituto Kitasato a visitar o Japão, onde proferiu conferências e recebeu a mais alta condecoração daquele país - a Ordem do Sol Nascente. No mesmo ano, em missão oficial, foi encarregado de estudar a profilaxia da lepra na Noruega, Filipinas e Hawaí.
        Em 1923 foi nomeado diretor do Museu Nacional, onde tomou iniciativas relevantes como a criação do Boletim, a publicação dos Arquivos do Museu e de material didático escolar, a criação de um jardim de plantas medicinais e a retomada das pesquisas arqueológicas de Lund em Lagoa Santa, em Minas Gerais.
        No ano seguinte, o Governo do Estado de São Paulo o convocou novamente para integrar a Comissão incumbida de debelar a "broca" do café, praga que estava devastando a cafeicultura no Estado com graves prejuízos para o País. O trabalho da Comissão foi coroado de êxito e alertou o Governo para a necessidade de criar-se uma instituição de bases científicas para proteção da agricultura. E assim foi fundado, em 1927, o Instituto Biológico de Defesa Agrícola e Animal que, em 1937, passou a denominar-se Instituto Biológico.3
        Arthur Neiva foi o primeiro diretor do Instituto, durante quatro anos, e teve como colaborador outro cientista de renome, que foi Henrique da Rocha Lima. Ambos elevaram bem alto o conceito e o prestígio do Instituto. Em 1928 Neiva criou a revista Arquivos do Instituto Biológico para divulgação dos trabalhos desenvolvidos no Instituto e, em sua gestão, foi implantado o regime de tempo integral para os jovens pesquisadores que eram admitidos. Seu lema, que gostava de repetir como um incentivo aos iniciantes era: "Trabalhe...trabalhe, nada resiste ao trabalho".4
        Após a revolução de 1930, Neiva se envolveu pela primeira vez com a política, ao aceitar sua nomeação para Secretário do Interior do Estado de São Paulo. Permaneceu no cargo apenas por três meses e, nesse curto prazo, tomou várias medidas que marcaram sua administração, dentre as quais a criação de um Departamento de Educação Física, o primeiro do País, e de um Serviço de Assistência aos Psicopatas.
        Em fevereiro de 1931 foi nomeado Interventor na Bahia, seu estado natal, permanecendo no posto durante seis meses. Em sua administração, criou o Instituto do Cacau, em defesa do principal produto do Estado.
        Em maio de 1933 foi eleito deputado federal constituinte pelo estado da Bahia e reeleito no ano seguinte para um mandato na Câmara Federal. Com o golpe de Estado em novembro de 1937 e a dissolução do Congresso, voltou às suas atividades no Instituto Oswaldo Cruz, onde permaneceu até 1943, quando faleceu aos 63 anos de idade.5
        Arthur Neiva foi a um só tempo médico, pesquisador, educador, escritor, sanitarista e homem público. Sua vasta cultura, sua inteligência, seu amor ao trabalho e seu patriotismo permitiram que ele se afirmasse como líder em todos os setores onde atuou. Seu legado científico é um patrimônio no acervo da ciência e da cultura nacionais. Além da extensa bibliografia científica, escreveu vários ensaios e um livro intitulado Estudos da língua nacional, que faz parte da coleção Brasiliana. 6  Como educador, formou toda uma geração de novos pesquisadores que seguiram o seu exemplo; como sanitarista, indicou os caminhos a serem trilhados para o saneamento urbano e rural; como homem público, esteve sempre pronto a servir o País, quando convocado.
        O Instituto Oswaldo Cruz o homenageou, dando o seu nome a um dos pavilhões do Instituto.
 
 

Referências bibliográficas


1. Renato Clark Bacellar. Brazil's contribution to tropical Medicine and Malaria, pp.189-198.
2. Arthur Neiva; Belisário."Viagem cientifica pelo norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul do Piauhí e de norte a sul de Goiaz". Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, 8(3) pp. 74-224. 1916.
3. Herman Lent. "Arthur Neiva". In Leonídio Ribeiro. Medicina no Brasil, 1940, pp. 136-140.
4. Márcia Maria Rebouças. "Pelo resgate da memória documental das ciências e da agricultura: o acervo do Instituto Biológico de São Paulo. História, Ciências, Saúde - Manuinhos 13(4) pp. 995-1005, 2006.
5. Renato C. Bacellar, op. cit.
6, Arthur Neiva. Estudos da lingua nacional, Cia. Editora Nacional, 1940.
 
 
Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
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