LINGUAGEM MÉDICA

ASMA


        A palavra asma é de origem grega e era empregada para expressar a dificuldade respiratória. Hipócrates utilizou a palavra asma no plural. No livro "Dos ares, das águas e dos lugares", no capítulo sobre climas (II,12) menciona que nas cidades expostas aos ventos quentes "as crianças são atacadas de convulsões, de asmas..." Também no Aforismo III.22 refere que diversas doenças são mais freqüentes no outono, dentre as quais cita "as asmas". Hipócrates foi, assim, o primeiro a assinalar o vínculo entre a asma e as condições ambientais.

        Celsus (séc. I d.C.), em seu tratado De medicina, livro IV.8 escreveu: "Há uma doença que entre os gregos recebe diferentes nomes conforme a sua intensidade. Consiste em dificuldade de respirar; quando moderada e sem sufocação é chamada dispnéia; quando mais acentuada, de modo que o paciente respira com ruído e esforço, asma, e quando a respiração só é possível na posição erecta, ortopnéia".

        Aretaeus, no séc. II d.C., descreveu a asma como dispnéia de esforço: "A dificuldade de respiração que se manifesta quando o paciente corre, faz exercícios ou executa qualquer outro trabalho é chamada de asma; a doença chamada ortopnéia é também chamada asma". Em sua descrição clínica da asma registrou o aparecimento de ruídos no tórax (estertores e sibilos).

        Girolamo Cardano, no início do século XVI, obteve grande fama ao curar o arcebispo de St. Andrews de uma afecção pulmonar que ele julgava fosse tuberculose e que, na realidade, era asma. O sucesso do tratamento foi devido em grande parte à substituição do leito de penas por outro de seda.

        Van Helmont (1577-1644), ele próprio um asmático, legou-nos uma descrição pormenorizada da asma, mencionando a produção de crises quando inalava poeira de casa ou comia peixe.

        Em 1860, Salter reuniu os conhecimentos adquiridos até então sobre asma, em um livro intitulado On asthma, its pathology and treatment. Neste livro deu especial ênfase ao papel etiopatogênico ao que chamou de "emanações animais". Refere-se especialmente ao gato, cão, coelho, cavalo e boi".

        Os chineses, há cerca de 4.000 anos, já tratavam a asma com um preparado de uma planta nativa na Mongólia, por eles chamada Ma Huang, e que foi identificada à Ephedra vulgaris. As primeiras investigações científicas sobre esta planta foram realizadas na Universidade Imperial de Tokio, por Nagai, quem, em 1887, isolou desta planta o alcalóide a que denominou efedrina.

        A introdução da efedrina na medicina ocidental ocorreu após o trabalho de divulgação de Chen & Schmidt, publicado no Journal of Pharmacology, em 1924.

        A palavra asma escreve-se em grego com a letra teta entre a primeira e a segunda sílaba. Na passagem do grego para o latim, a letra teta é substituída por th (asthma).

        Embora o dígrafo th tenha o valor fonético de t antes de vogal, em asthma o mesmo não é pronunciado. Conservou-se, entretanto, na escrita, em francês (asthme), inglês e alemão (asthma) e foi suprimido em italiano, espanhol e português. Em português as duas formas coexistiram por muito tempo, estando ambas averbadas em dicionários do século XIX (Moraes, 1813; Constâncio, 1854; Faria, 1856; Vieira, 1871). Os léxicos de Aulete (188l) e de Ramiz Galvão (1909) registram somente asthma. Após a reforma ortográfica prevaleceu unicamente a forma asma.

Fontes bibliográficas

1. Hippocrate - Des airs, des eaux et des lieux. Trad. francesa, bilingüe. Paris, Th. Barrois, 1816, p. 13
2. Hippocrates - Aphorisms. Trad. inglesa, bilingüe por Jones, W.H.S.. Loeb Classical Library. Cambridge, Harvard University Press, vol. I, 1972, p. 131.
3. Celsus, A.C. - De Medicina. Trad. inglesa, bilingüe, por Spencer, W.G. . Loeb ClassicalLibrary. Cambridge, Harvard University Press, vol. I, 1971,p. 385.
4. Major, R.H. - A history of medicine. Springfield, Charles C. Thomas, 1954.
5. Araeteus - Trad. inglesa por Major, R.H. Classic descriptions of diseases, 3.ed.. Springfield, Charles C. Thomas, 1959, p. 576.
6. Wong, K.C., Lien Teh, W. - History of chinese medicine. Shangai, National Quartine Service, 1936, p. 117.
7. Morton, L.T. - A medical bibliography (Garrison e Morton), 4.ed. London, Butler & Tanner Ltd., 1983, p. 341.


Publicado no livro Linguagem Médica, 4a. ed., Goiânia, Ed. Kelps, 2011.  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br