LINGUAGEM MÉDICA
 

"BIAS" e VIÉS


        Ambos os termos têm o mesmo significado, sendo usados em estatística para expressar, respectivamente em inglês e português, o erro sistemático ou tendenciosidade [1].

        Não se justifica, portanto, tomar de empréstimo ao inglês o termo bias, quando temos em português o seu equivalente, que é viés. Contudo, embora pouco frequente, o fato tem ocorrido na literatura médica brasileira, na proporção de 20 artigos que usaram corretamente viés, para cada artigo que utilizou bias, ora com a palavra entre aspas para indicar sua procedência estrangeira, ora sem aspas, aportuguesada.

        Vamos citar alguns exemplos colhidos nos resumos de artigos indexados pela BIREME, com menção à revista, volume, página inicial do artigo e ano.[2]

        1. "A hipótese de ausência de bias no diagnóstico psiquiátrico foi testada usando-se uma amostra populacional de 385 adultos."
            J .bras. Psiquiatr. 33:159, 1984

        2. "Ressalta alguns dos mecanismos utilizados em diferentes momentos da investigação no sentido de minimizar a possibilidade do aparecimento desses tipos de bias..."
            Cad. Saúde Pública 11:118, 1995

        3. "Existe a possibilidade de causalidade reversa e os estudos que avaliam os efeitos do desemprego no estado de saúde podem ter um "bias" dos efeitos da saúde no emprego."
            J.bras.Psiquiatr. 43:267, 1994

        4. "Os críticos referiam as fragilidades do método e a susceptibilidade aos bias.
            Cad. Saúde Pública 17:1017, 2001

        5. "Estudos analíticos que minimizem bias da confusão são necessários para aferir o grau de interferência do uso de antiretrovirais..."
            An. bras. Dermatol. 78:35, 2003

        A utilização de bias em lugar de viés menos ainda se justifica se considerarmos que ambos os termos têm uma origem comum, procedendo do francês biais.

        A etimologia de biais em francês é incerta, admitindo-se como possíveis as seguintes origens:

        1. Alteração do latim obliquos. [3][4]
        2. Do latim bifax ou bifacem(duas faces) [5][6]
        3. Do grego epikarsios, oblíquo. [7][8]
        4. Do latim biaxius (dois eixos) [9]

        Do francês biais originou-se bias em inglês por supressão da vogal i da última sílaba.Para entender a transformação de biais em viés, em português, devemos nos lembrar que em Portugal as consoantes b e v têm som muito semelhante e que o ditongo ai em francês soa como e.

        O termo viés, com o sentido de direção oblíqua, é bem antigo na língua portuguesa, datando do século XV   Escrevia-se  inicialmente vyees, passando a viez (com a letra z),ou vieis (com ou sem acento na última sílaba), conforme se encontra nos léxicos do século XIX (Moraes, 1813; Constâncio, 1845; Faria, 1856; Lacerda, 1874, Vieira, 1874, Aulete, 188l; C. Figueiredo, 1899) e, finalmente, à forma gráfica atual de viés. O seu uso em estatística é recente, datando do século XX.

        Em conclusão, só devemos usar bias em textos redigidos em inglês, e viés em textos redigidos em português.
 

Referências bibliográficas

1. REY, L.- Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan S.A., 1999.
2. BIREME – Internet. Disponível em 13/01/2004 em http://www.bireme.br/
3. CONSTANCIO, F.S. - Novo dicionário crítico e etimológico da língua portuguesa, 3.ed. Paris, Angelo Francisco Carneiro, 1845.
4. LACERDA, J.M.A.A.C.- Dicionário enciclopédico ou Novo dicionário da língua portuguesa. Lisboa, F. Arthur da Silva, 1874.
5. AULETE, F.J.C. – Dicionario contemporaneo da língua portuguesa. Lisboa, 1881.
6. HATZFELD, A., DARMESTETER, A., THOMAS, M.A. – Dictionnaire général de la langue française.Paris, Lib. Delagrave, s/d
7. DAUZAT, A., DUBOIS, J., MITTERRAND, H. - Nouveau dictionnaire étymologique et historique, 3.ed. Paris, Larousse, 1994.
8. BLOCH, O, VON WARTBURG, W. - Dictionnaire étymologique de la langue française, 7.ed. Paris, Presses Universitaires de France, 1986.
9. TRÉSOR DE LA LANGUE FRANÇAISE. Apud HOUAISS, A., VILLAR, M.S. (10)
10. HOUAISS, A., VILLAR, M.S; - Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001

Publicado no livro Linguagem Médica, 4a. ed., Goiânia, Ed. Kelps, 2011.  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br