LINGUAGEM MÉDICA
 

BIÓTIPO, BIOTIPO


        A palavra biotype foi cunhada no início do século XX pelo geneticista e botânico dinamarquês W. L. Johannsen, o mesmo que introduziu o termo gene em biologia.[1]

        Escrita em inglês e francês com y, passou para o português com a grafia biotypo, posteriormente modificada para biotipo, em virtude da reforma ortográfica de 1943.

        A questão que suscita dúvida diz respeito ao acento tônico. Proparoxítona ou paroxítona? Biótipo ou biotipo?

        O termo tem sido empregado em mais de uma acepção em biologia, genética e medicina clínica. Interessa-nos particularmente o seu uso em clínica.

        A idéia de classificar os indivíduos em tipos conforme suas características morfológicas corporais data de Hipócrates e sempre se procurou correlacionar o tipo constitucional com uma certa predisposição para determinadas doenças. Esta doutrina teve grande aceitação na primeira metade do século XX, dando origem a uma nova ciência - a biotipologia. Seus maiores representantes foram Viola, Pende, Walter Mills, Sheldon e, no Brasil, Berardinelli, autor do livro Tratado de biotipologia e patologia constitucional.[2]

        Todas as classificações propostas utilizaram o termo biotipo. Na classificação de Viola são usadas ainda as denominações de longitipo, normotipo e braquitipo (que correspondem a longilíneo, mediolíneo e brevilíneo da classificação de Pende, enquanto Sheldon introduziu o termo somatotipo.

        Durante anos seguidos, nas escolas médicas, nas lições dos mestres, nos livros didáticos e nos trabalhos publicados, biotipo sempre foi pronunciado e escrito como palavra paroxítona.

        Insistem, entretanto, os puristas da língua em chamar a atenção dos médicos para o erro prosódico e dão a palavra como proparoxítona - biótipo.

        Pedro Pinto, em seu Dicionário de Termos Médicos escreve: "ouve-se a pronúncia errônea biotipo, com acento na penúltima. Há de ser biótipo, com acento na antepenúltima".[3]

        Mendes de Almeida, em seu Dicionário de Questões Vernáculas, registra: "Biótipo - Por ser breve o y (i na ortografia oficial) do elemento typo os compostos que por ele terminarem serão proparoxítonos: biótipo, genótipo, fenótipo, protótipo.[4] Teríamos, assim, que pronunciar também longítipo, normótipo, braquítipo, somatótipo.

        O Vocabulário Ortográfico da Academia Brasileira de Letras registra as duas formas: biótipo e biotipo.[5]

        Dos dicionários mais modernos, o Michaelis averba somente biótipo;[6] o de Houaiss consigna as duas formas, com preferência para biótipo,[7]e o de Aurélio Ferreira, mesmo optando por biótipo assinala que "a pronúncia corrente no Brasil é biotipo".[7]

        O Prof. Idel Becker, em seu livro Nomenclatura Biomédica no Idioma Português do Brasil ressalta a supremacia do uso sobre a norma e adverte que "os fenômenos linguísticos não obedecem a leis rigorosas imutáveis, como os fenômenos físicos e químicos".[8]

        Assim sendo, embora sabendo que a pronúncia correta deveria ser biótipo, a forma biotipo não pode ser condenada por estar legitimada pelo uso.
 

Referências bibliográficas

1. MORTON, L.T. - A medical bibliography (Garrison and Morton), 4.ed. London, Gower, 1983, p. 32
2. BERARDINELLI, W. - Tratado de biotipologia e patologia constitucional, 4.ed. Rio de Janeiro, Liv. Francisco Alves, 1942.
2. PINTO, P.A. - Dicionário de termos médicos, 8. ed. Rio de Janeiro, Ed. Científica, 1962.
4. ALMEIDA, N.M. - Dicionário de questões vernáculas. São Paulo, Ed. "Caminho Suave" Ltda., 1981.
5. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS - Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 3. ed. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1999.
6. MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998.
7. HOUAISS, A., VILLAR, M.S. – Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
8. FERREIRA, A.B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1999.
9. BECKER, I. - Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil. São Paulo, Liv. Nobel, 1968.
 
 
 

Publicado no livro Linguagem Médica, 4a. ed., Goiânia, Ed. Kelps, 2011.  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br