LINGUAGEM MÉDICA

CACOETES DA LINGUAGEM MÉDICA

ATRAVÉS DE -  ONDE -  DEVIDO A


Define-se cacoete em linguística como “a predileção por ou uso repetido e automático de certa(s) palavra(s), expressão(ões)... etc” (Houaiss, 2009). Na maioria das vezes decorre do descaso com a redação ou, o que é pior, da pobreza vocabular do autor, que se deixa levar pelos lugares-comuns da linguagem em curso, mesmo que não sejam os mais adequados gramaticalmente. Daremos como exemplos as expressões airavés de, onde e devido a.

Através de

Através de é locução prepositiva formada do advérbio através e da preposição de. Conforme registram os léxicos da língua portuguesa, através de significa: "de um lado para outro lado", "de ponta a ponta", "ao correr de", "por entre", "no decurso de". Expressa, portanto, a ideia de movimento, de passagem, de transposição, de deslocamento no espaço ou transcurso no tempo, seja concretamente, seja sob a forma de metáfora.
Não é correto empregar através sem a preposição de. Através as matas, através o vidro, através os anos, são construções próprias da língua francesa, portanto galicismos. Através deve sempre acompanhar-se da preposição de; assim, nos exemplos acima, as formas corretas são: através das matas, através do vidro, através dos anos (4, 5).
A locução através de vem sendo usada abusivamente em textos médicos, nem sempre de forma apropriada, em substituição a outras preposições e locuções prepositivas mais consentâneas.
São corretíssimas frases como:
O mesmo já não se pode dizer de frases como estas:
A redação alternativa adequada seria:
Mendes de Almeida condena acrimoniosamente tanto o galicismo através o, como o uso da locução através de no agente da passiva: "Constitui horripilante galicismo a omissão da preposição. Deve-se dizer através do rádio, jamais através o rádio". "Não menos horripilante é o emprego de através de no agente da passiva". E conclui: "Vezes há em que a simples preposição por ou a preposição de expressam suficiente e completamente a idéia sem o pelintra através de" (4).

Onde

Onde é advérbio de lugar ou, segundo as gramáticas mais modernas, advérbio-pronome (1) ou advérbio pronominal relativo (2), que deve ser usado no sentido locativo, isto é, quando o antecedente contém a idéia de local.
São exemplos de seu uso adequado:
O emprego de onde como pronome relativo, em substituição a em que, no(a) qual, nos (as) quais, segundo o (a) qual, segundo os(as) quais, deve ser evitado (3).
São exemplos de uso inadequado (colhidos em textos médicos): "Existem casos onde (em que) o tratamento pode evitar sequelas”. "Há um grande número de enfisematosos, onde (nos quais) predomina a bronquite". "Dentre as causas de febre devem ser lembradas as neoplasias, onde (nas quais) geralmente não há infecção". "Procedemos de acordo com a técnica, onde (segundo a qual) a semeadura é feita em tubos de cultura".
Nó, atrioventricular, útero, tecido adiposo, tecidos e laboratório designam locais, cabendo, portanto, o emprego do advérbio pronominal onde.
Tratamento, enfisematosos, neoplasias e técnica não se referem a locais, o que torna impróprio o emprego do advérbio pronominal onde.
Em algumas construções em que se emprega onde seguido do verbo haver, seria muito mais simples o uso da preposição com, como nos dois exemplos seguintes:
Neste caso, a redação sugerida seria:
Redação sugerida:
Deve-se evitar ainda o emprego de onde sempre que houver dubiedade de sentido.
Exemplo:
O sentido não é claro, pois tanto pode ser o de que o infiltrado inflamatório é rico em células mononucleares como o de que o infiltrado invade a lâmina própria nos locais em que predominam as células mononucleares.

Devido a

Devido é particípio passado do verbo dever. Acompanhado da preposição a pode converter-se em forma preposicional (6).
O particípio flexiona-se em gênero e número para concordar com o substantivo. Ex.: "A dispnéia, nestes casos, é devida à (e não devido a) congestão pulmonar". "Os efeitos colaterais, devidos à (e não devido a) hipersensibilidade, impediram a continuação do tratamento".
O uso de devido a como locução prepositiva, sem a flexão do particípio, é condenado pelos puristas da língua, embora seja de uso frequente. "Por amor da correção, porém", diz Vittorio Bergo, "cumpre seja evitado semelhante uso, desde que ao particípio devido não corresponda um substantivo com o qual concorde" (7).
Mesmo aceitando-se como correta a locução prepositiva devido a sem a flexão do particípio, o seu uso repetitivo e monótono, como forma única de expressão de causalidade, deve ser evitado, pois a nossa língua é rica de expressões equivalentes, tais como por (pelo, pela), graças a, por causa de, em razão de, em resultado de, em vista de, em função de, em virtude de, secundária a, em decorrência de (ou decorrente de), em consequência de (ou consequente a), e outras menos apropriadas à linguagem científica, como mercê de, por obra de, etc.
Seguem alguns exemplos de frases, colhidas em textos médicos, nas quais a locução prepositiva devido a poderia ser substituída com evidente ganho estilístico:
Por vezes suprime-se a preposição a, o que desfigura ainda mais a frase, como nos exemplos seguintes:

Referências bibliográficas

      HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles – Dicionário Houaiss da língua portuguesa.(versão eletrônica). Rio de Janeiro,  Ed. Objetiva, 2009
      1. ROCHA-LIMA Carlos Henrique. Gramática normativa da língua portuguesa. , 31..ed., Rio de Janeiro. José Olympio Editora, 199l., p. 333
      2. BECHARA, Evanildo - Moderna gramática portuguesa, 31. ed. São Paulo, Cia. Editora Nacional, 1987, p. 154.
      3.   MARTINS, Eduardo – Manual de redação e estilo, 3. ed. São Paulo, Editora Moderna, 1997,  p. 204
      4.   ALMEIDA, Napoleão Mendes de - Dicionário de questões vernáculas. São Paulo, Ed. "Caminho Suave" Ltda., 1981.
      5. BARRETO, Mário - Novos estudos da língua portuguesa, 3.ed. fac-similar. Rio de Janeiro INL-Presença, 1980, p. 483
     6. MACHADO FILHO, Aires da Mata - Coleção "Escrever Certo", 2.ed. (6 vol.). São Paulo, Boa Leitura Ed., 1966., p. 226
      7. BERGO, Vittorio - Erros e dúvidas de linguagem, 5.ed. Juiz de Fora, Ed. Lar Católico, 1959, p. 132.


Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br
30/06/2013