LINGUAGEM MÉDICA
 

COLECISTOCININA, COLECISTOQUININA


        O termo cholecystokinine foi proposto por Ivy e Oldberg, em 1928, para designar o hormônio produzido pela mucosa duodenal, distinto da secretina, e dotado de ação sobre a vesícula biliar.[1] Do inglês o termo passou para outros idiomas com as adaptações mórficas necessárias: cholécystoquinine em francês, cholecistochinina em italiano, colecistoquinina em espanhol.

        Em português temos as formas colecistocinina e colecistoquinina e devemos optar por uma delas.

        A questão de usar-se c ou qu em determinadas palavras derivadas do grego tem sido objeto de considerações por parte de muitos lexicólogos e já foi discutida a propósito do termo anquilose.

        Colecistocinina compõe-se dos seguintes elementos gregos: kholé, bile + kýstis, bexiga (vesícula) + kine, do verbo kinéo, mover + sufixo ina, utilizado para designar derivados químicos de várias espécies.

        Acha-se bem estabelecido que as palavras que se escrevem em grego com K (kapa) devem grafar-se com C em português, ao contrário daquelas iniciadas por X (khi), em que se preserva o som de k ou ch, atualmente representado por qu.

        Numerosos são os termos formados a partir de palavras gregas iniciadas por K (kapa) que se escrevem com c em português. Exemplos: kephalé, cabeça (cefálico, cefaléia, encéfalo); kéle, tumor, hérnia (cistocele, retocele, hidrocele); koilía, ventre (celiotomia, celíaco); kýstis, bexiga (cistite, cistoscópio, cistotomia).

        A maioria dos autores propugna obediência a esta norma, advogando a padronização da escrita para todos os casos em que a mesma se aplica. Assim, os derivados de kéras, keratós (corno, chifre), como queratina, queratose, queratite, deveriam escrever-se com c: ceratina, ceratose, ceratite, etc. Do mesmo modo, ancilose (do grego ágkylos, curvo) deveria substituir anquilose.

        Há palavras que já não podem ser modificadas, por estarem ungidas pelo uso popular. É o caso de querosene, derivado de kéros (cera, gordura), e que deveria ser cerosene.

        Nascentes se insurge contra a generalização desta regra. "As formas modernas", diz ele, "mantêm os sons do grego. É um absurdo querer fazê-las passar por uma evolução que não tiveram".[2]

        Em relação à colecistocinina, parece preferível a grafia com a letra c, a exemplo de colecistocinético. Acresce notar que a denominação de cininas é correntemente empregada para designar um grupo de peptídios com ação vasodilatadora, dos quais o protótipo é a bradicinina, descoberta e assim batizada pelos pesquisadores brasileiros Rocha e Silva, Beraldo e Rosenfeld.[3] Por analogia, teríamos de optar também por cinases, em lugar de quinases. Teríamos condições de fazer prevalecer enterocinase sobre a antiga e consagrada forma enteroquinase? E que dizer das quinases aldônicas, como a hexoquinase, fosfoglicoquinase, frutoquinase e outras enzimas do mesmo grupo?

        Como diz Nascentes, a língua é cheia de incoerências. Seria utópico desejar uma solução única para todos os casos semelhantes. Continuaremos escrevendo anquilose, queratina, hexoquinase, querosene, ao lado de cefaléia, cistocele, ancilóstomo e colecistocinina
 
 

Referências bibliográficas


1. IVY, A.C., OLDBERG, E.- Am. J. Physiol. 86:599-613, 1928
2. NASCENTES, A. - Dicionario etimológico resumido. Rio de Janeiro, INL, 1966.
3. ROCHA E SILVA, M., BERALDO, W.T., ROSENFELD, G. - Am. J. Physiol. 156:216, 1949
 

Publicado no livro Linguagem Médica, 4a. ed., Goiânia, Ed. Kelps, 2011.  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br