HISTÓRIA DA MEDICINA
 

COMO UM TRATADOR DE CÃES CONTRIBUIU
PARA O PROGRESSO DA RADIOLOGIA



Nota de Direito Autoral:  O texto deste artigo foi publicado em 2009  no livro "À sombra do plátano" pela Editora UNIFESP. A reprodução do mesmo por meio impresso ou eletrônico requer autorização prévia da Editora [http://www.fapunifesp.edu.br fone: (11) 3369-4000]


        A história da colecistografia é um exemplo bem ilustrativo de que a mente humana, por mais brilhante e preparada que seja, deixa de perceber noções aparentemente óbvias, assim consideradas a posteriori. E também de como ocorrências imprevistas podem contribuir para clarear o caminho da pesquisa científica.

        No início do século XX, a radiologia era o único método de diagnóstico por imagem de que dispunha a medicina. A cada dia os equipamentos eram aprimorados e novas técnicas de exame eram descritas ou aperfeiçoadas.

        O exame contrastado do tubo digestivo, inicialmente com sais de bismuto e, a seguir, com sulfato de bário, já estava sendo empregado com sucesso no diagnóstico das doenças do estômago e do cólon.

        A vesícula biliar, entretanto, permanecia inacessível aos raios-X para estudo da sua patologia. O máximo que se podia conseguir era a imagem de cálculos radiopacos em radiografias simples do abdome. A primeira referência à imagem de cálculos biliares em um paciente data de 1898, porém, somente em 1911, graças ao avanço da tecnologia e à maior experiência dos radiologistas, foi possível detectar a bile cálcica. Tornou-se evidente que a vesícula biliar só poderia ser visualizada se fosse contratastada, a exemplo do tubo digestivo.

        Em 1921, Evarts Ambrose Graham, professor de Cirurgia na Washington University in St. Louis, nos Estados Unidos, interessou-se pelo problema e convidou um estudante do segundo ano, de nome Warren Henry Cole, para desenvolver um projeto nesse sentido. Os seguintes dados de descobertas anteriores serviram como ponto de partida para a investigação:
      
        1. Os halogênios (cálcio, bromo e iodo) são opacos aos raios-X e seus compostos podem ser administrados por via venosa em seres vivos

        2. O composto tetraclorofenolftaleína é excretado na bile, conforme haviam demonstrado Abel e Lowntree, em 1909.

        3. Rous e Mc Master haviam descoberto em 1921 a capacidade de concentração da bile.

        4. Radiografias contrastadas das vias urinárias haviam sido obtidas com a injeção intravenosa de iodeto de sódio.

        Com estes elementos, Grahm e Cole deram início às suas experiências e uma grande variedade de compostos halogenados foram testados em cães e coelhos. Com uma persistência incomum, Cole injetou por via intravenosa cerca de 200 animais com diferentes compostos de tetrabromofenolftaleína e tetraiodofenolftaleína, sem obter o menor resultado. Em nenhum caso apareceu na radiografia a imagem da vesícula. Até que, em 1923, Cole obteve em um cão, bem contrastada, a sombra densa da vesícula.

        Ao contemplar a radiografia, Graham e Cole, entusiasmados, decidiram prosseguir com os experimentos. Nos dias seguintes, contudo, usando a mesma substância e a mesma técnica, nenhuma outra imagem semelhante foi obtida.

        Cole decidiu rever a radiografia com a vesícula contrastada, temendo um erro de interpretação da imagem; poderia tratar-se, talvez, de um osso ou corpo estranho ingerido pelo cão. Enquanto examinava a radiografia entrou na sala o radiologista do Hospital, Dr. Walter Mills, quem, de relance, olhando para o negatoscópio, perguntou a Cole: "Meu jovem colega, onde você conseguiu esta radiografia?" Cole explicou-lhe o problema e sua dúvida quanto à natureza da imagem. "Não seja tolo, rapaz, é a vesícula biliar e a imagem está tão nítida que a aplicação do método a seres humanos é somente uma questão de experimentação".

        Intrigado, Cole procurou o auxiliar de laboratório Bill, que cuidava dos cães, e indagou dele o que acontecera de diferente com aquele animal no dia em que o mesmo fora radiografado. De início, Bill disse não se lembrar de nada especial em relação àquele cão. Cole explicou-lhe que somente naquele animal havia conseguido um resultado satisfatório em suas pesquisas. "Bem, Dr. Cole", retrucou Bill reticente, temendo uma admoestação: "houve uma diferença, sim, naquele dia eu me esqueci de dar alimento àquele cão pela manhã." Cole, com os seus conhecimentos de fisiologia, encontrou de pronto a explicação para o fracasso das suas experiências. Eureka! Exultante, Cole avançou para abraçar Bill, que retrocedeu assustado. Ao ver o semblante alegre de Cole, no entanto, tranquilizou-se e recebeu um caloroso aperto de mãos de seu chefe.

        Um simples acaso decorrente do descuido de um modesto tratador de cães veio esclarecer o enigma. A partir daí os cães passaram a ser injetados antes de serem alimentados e a vesícula se opacificou na maioria deles.

        Em 1924 o método foi empregado pela primeira vez no ser humano; a substância injetada foi, inicialmente, a tetrabromofenolftaleína de cálcio, logo substituída pela tetraiodofenolftaleína de sódio, que produzia menos efeitos colaterais.

        A verificação de que o contraste eliminado na bile é reabsorvido no intestino e reexcretado, mantendo a imagem da vesícula por algum tempo, levou à substituição da via venosa pela via oral para administração do contraste.

        A partir de 1925, até o advento da ultra-sonografia na década de 70, a colecistografia oral foi o método utilizado rotineiramente para o diagnóstico das colecistopatias.
 
 

Fontes bibliográficas

ROUS, P., M., Mc MASAER, P.D. - The concentrating activity of the gallbladder. J. Exper. Med. 34:47-73, 1921.
GRAHAM, E.A. WAARREN, H.C. - Cholecystography. An experimental and clinical study. JAMA 84(1):14-16, 1925.
COLE, W.H. - Historical features of cholecystography. Radiology 76: 354-375, 1961.
GOODMAN, P.C. - Historia. In MAARGULIS, A.R., BURHENNE, H.J.(org.) - Radiologia del aparato digestivo (trad.), 4.. ed., Buenos Aires, Ed. Medica Panamericana, 1991.
 
 

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br
27/4/2008