LINGUAGEM MÉDICA
 

COMEDON (ES), COMEDÃO (ÕES),
CÔMEDO (S)

        Os termos acima provêm do latim comedo, comedor, do verbo comedo, edere, comer, alimentar-se. Comedo, em latim, designava, primitivamente, larvas de moscas que se alimentam de carne. Os antigos autores admitiam que a matéria esbranquiçada, de forma cilíndrica, que se forma nos folículos pilossebáceos da pele, era resultante de um parasito das glândulas sebáceas, razão pela qual foi o termo empregado por Hebra para designar tais formações.[1] Em inglês, o termo comedo foi introduzido em 1866[2] e, em francês, comédon se encontra registrado, com definição pormenorizada, no dicionário de Littré e Robin, de 1873.[3]

        Os comedones caracterizam o acne vulgar e "são constituídos pelo acúmulo de gordura e células córneas dentro do folículo pilossebáceo".[4]

        Apresenta-se o comedon como uma pequena saliência branco-amarelada, em cujo vértice, às vezes deprimido, se distingue um ponto negro, correspondente ao orifício do ducto excretor. Por esse aspecto é também chamado, em inglês, de blackhead. Espremendo-se a pele desprende-se um pequeno cilindro vermiforme, escuro ou pardacento na sua extremidade superior e branco na sua extremidade infearior. A cor escura da extremidade superior se deve à oxidação da matéria córnea em contato com o ar, e não à deposição de sujidades, como se acreditava.[5]

        O aportuguesamento do vocábulo corresponde a comedão e comedões conforme se encontra averbado nos dicionários médicos de Pedro Pinto[6] e Céu Coutinho.[7]

        O Prof. Francisco Rabelo, uma das maiores autoridades em dermatologia, contudo, grafa cômedo em sua Nomenclatura Dermatológica.[8]

        Além das três formas apontadas que integram o vocabulário médico, utiliza-se em linguagem popular a denominação de cravo, certamente pela disposição anatômica da formação sebácea, adentrando a derme à semelhança de um cravo que penetra no tegumento cutâneo.

        O termo cravo se presta à confusão por sua polissemia. Além de designar um tipo especial de prego, uma variedade de flor, uma especiaria e um instrumento musical, tem, em medicina, outro significado, de vez que designa também a hiperqueratose que se desenvolve na região plantar do pé, em forma de cone, que penetra profundamente a derme, causando dor.

        Embora os comedones, comedões ou cômedos não sejam produzidos por parasito, como se pensava, por vezes se encontram associados à presença de um ácaro chamado Demodex foliculorum, cujo habitat é o folículo sebáceo.[9]

        Por mais impróprio que seja o termo, dificilmente o mesmo será abandonado. Das três formas em uso, a menos aconselhável é, sem dúvida, comedon. Dos léxicos modernos não especializados em termos médicos, o Michaelis e o dicionário de Houaiss registram apenas comedão.[10][11] Assim também o Vocabulário da Academia Brasileira de Letras.[12]

        A decisão final, contudo, cabe aos dermatologistas.
 

Referências bibliográficas

1. SKINNER, H.A. - The origin of medical terms, 2.ed. Baltimore, Williams & Wilkins, 1961, p. 126.
2. OXFORD ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 3.ed. Oxford, Claredon Press, 1978.
3. LITTRÉ, E., ROBIN, Ch. - Dictionnaire de médecine, de chirurgie, de pharmacie, de l’art vetérinaire et des sciences qui s'y rapportent, 13.ed. Paris, Baillière et Fils, 1873
4. PARDO CASTELLÓ, V. - Dermatologia y sifilografia, 3.ed. Havana, Cultural S.A., 1945, p. 44.
5. ROCHWEGER, M.: Acne. Clin. Terap. 11: 826-828, 1982
6. PINTO, P.A. - Dicionário de termos médicos, 8. ed. Rio de Janeiro, Ed. Científica, 1962.
7. COUTINHO, A.C. - Dicionário enciclopédico de medicina, 3.ed. Lisboa, Argo Ed., 1977
8. RABELLO, F.E. - Nomenclatura dermatológica. Rio de Janeiro, 1974, p, 19.
9. PESSOA, S.B. - Parasitologia médica, 5.ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1958, p, 835.
10. MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998
11. HOUAISS, A., VILLAR, M. – Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001
12. ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS – Vocabulário ortográfico da língua portuguesa, 3. ed. Rio de Janeiro, Imprensa Nacional, 1999.   

Publicado no livro Linguagem Médica, 4a. ed., Goiânia, Ed. Kelps, 2011.  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br