HISTÓRIA DA MEDICINA

AS FLORES DE MISS COOKE E A DESCOBERTA DA DIGITAL



Nota de Direito Autoral:  O texto deste artigo foi publicado em 2009  no livro "À sombra do plátano" pela Editora UNIFESP. A reprodução do mesmo por meio impresso ou eletrônico requer autorização prévia da Editora [http://www.fapunifesp.edu.br fone: (11) 3369-4000]

     
        Até o início do século XX a Botânica era uma disciplina importante do curso médico, porquanto grande parte dos medicamentos até então utilizados provinha de plantas e consistia de extratos de vegetais preparados artesanalmente, muitas vezes pelo próprio médico.
        William Withering, estudante de medicina em Edimburg, na Inglaterra, tinha particular aversão pela Botânica e seus estudos nessa área limitaram-se ao mínimo necessário para obter aprovação no curso médico.
        Withering viveu de 1741 a 1799. Graduou-se em medicina em 1766 e passou a clinicar na pequena cidade de Stafford.

        Uma de suas primeiras clientes foi uma jovem e talentosa pintora, de nome Helen Cooke, por quem Withering logo se apaixonou. Miss Cooke tinha especial predileção pela pintura de flores e Withering passou a coletar flores do campo para ela pintar. Interessou-se de tal maneira pelas plantas que voltou a estudar Botânica e se tornou profundo conhecedor da flora britânica, chegando a publicar um livro sobre as plantas nativas da Inglaterra..

        De tanto ganhar flores, Miss Cooke terminou por corresponder ao amor de Withering.
        Após desposar Miss Cooke, Withering transferiu-se para Birmingham, que já despontava como um centro industrial. Nesta cidade passou a integrar um grupo seleto de intelectuais que formavam a Sociedade Lunar de Birmingham, assim chamada pelo fato de seus membros se reunirem em noites de lua cheia, pois não havia iluminação nas ruas.
        Em Birmingham Withering foi um clínico de sucesso.
        Sua grande contribuição à medicina consistiu na descoberta da ação terapêutica da digital (Digitalis purpurea). Em seu trabalho intitulado Account of the foxglove and some of its medical uses, publicado em 1785, o autor nos conta como fez a sua descoberta baseado na medicina popular.


        "No ano de 1775 tive minha atenção despertada para uma receita popular destinada à cura da hidropisia. Dizia-se que esta receita fora mantida em segredo por uma velha de Shropshire, que conseguia curar pacientes em que o tratamento médico havia falhado. Fui informado que tal medicação produzia vômitos violentos e efeito purgativo; os seus efeitos diuréticos aparentemente haviam passado despercebidos. A receita compunha-se de diferentes plantas, em número de 20 ou mais; porém, não foi muito difícil para um conhecedor destes assuntos perceber que a planta ativa dentre as empregadas não poderia ser outra senão a digital".
    Withering experimentou diferentes partes da planta, encontrando maior atividade nas folhas; determinou as doses em que poderia ser usada com segurança pelos pacientes, recomendando a sua interrupção em presença de náuseas e vômitos; demonstrou ser a hidropisia uma conseqüência da insuficiência cardíaca e não uma doença primitiva como era considerada; separou o edema cardíaco, que respondia bem à digital, do edema da cirrose hepática, resistente à ação da digital. Aparentemente não percebeu a ação cardiotônica da digital, considerando-a como um diurético.
    A história da descoberta da digital demonstra os intrincados caminhos da medicina. Não fosse Miss Cooke e provavelmente Withering jamais teria se interessado pelas plantas e feito a sua notável descoberta. Demonstra, também, a importância da medicina popular, que pode ser a fonte de importantes descobertas científicas.
 
 
 

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br