LINGUAGEM MÉDICA

ERUCISMO

        A propósito do termo erucismo, praticamente desconhecido na terminologia médica, consultamos algumas fontes bibliográficas e chegamos à conclusão de que o mesmo, embora não esteja dicionarizado, é um termo correto, que expressa com propriedade a ação tóxica de larvas peçonhentas como a lagarta do gênero Lonomia.

        É um neologismo híbrido, formado com a raiz latina eruca + sufixo grego ismo.

        O sufixo ismo, conforme assinala Houaiss em seu dicionário, é usado em medicina "para designar uma intoxicação de um agente obviamente tóxico".[1]

        Horácio, o clássico escritor e poeta latino do século I a.C., deu o nome de eruca a uma planta cultivada na Europa (Eruca sativa), usada como comestível, cujas folhas têm a superfície aveludada.

        Com o significado de larva, o termo eruca encontra-se registrado no Lexicum Latinum de Calepinus, de 1758, com a referência histórica de que o mesmo fora empregado por Columela no século I d.C., em seu livro Rei Rustica 1.II (...genus vermis qui in olerum folia repit).[2] Provavelmente Columela deu este nome à larva por seu corpo recoberto de cerdas, lembrando o aspecto das folhas da planta descrita por Horácio.

        Outras fontes, como o Dicionário Latino-Português, de Saraiva, atribuem a acepção de larva a Plinius, em sua clássica obra Naturalis Historiae.[3]

        Consultando o texto original dessa obra, no livro XI.xxxvii, verificamos que Plinius, na verdade, não usou eruca e sim uruca (inde porrigitur vermiculus parvus et triduo mox uruca).[4]

        A existência de variantes da palavra eruca é explicada por Ernout et Meillet, em seu Dictionnaire etymologique de la langue latine.[5] A planta à qual Horácio dera o nome de eruca era considerada afrodisíaca e, por essa razão, surgiram as formas uruca (usada por Plinius) e urica, ambas por influência do radical uro (do grego oûron, que, segundo Bailly, além de urina, significa também líquido seminal).[6]

        Aceita esta explicação, parece evidente que deve prevalecer a forma eruca na formação de compostos como eruciforme e erucismo, o primeiro dos quais já averbado nos léxicos.

        Erucismo pode ser comparado a outros tipos de envenenamento por peçonha de origem animal, a exemplo de ofidismo, escorpionismo, aracnidismo ou aracnoidismo. Uma vez legitimado pelo uso, certamente o termo erucismo irá integrar o acervo lexical não somente da língua portuguesa, como de outros idiomas de cultura, com as adaptações mórficas apropriadas a cada um deles. Em inglês, por exemplo, seria erucism, tal como em ophidism, scorpionism e arachnidism.
 
 

Referências bibliográficas


1. HOUAISS, A., VILLAR, M.S. - Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001
2. CALEPINUS. - Lexicon Latinum, 8. ed., Patavii, Typis Seminarii, 1758.
3. SARAIVA, F.R.S. - Dicionário latino-português, 10.ed. Rio de Janeiro, Liv. Garnier, 1993.
4 PLINIUS - Naturalis historia. The Loeb Classical Library, vol. III. Cambridge, Harvard University Press, 1979, p. 502.
5 ERNOUT, A. , MEILLET, A. - Dictionnaire étymologique de la langue latine. Histoire des mots, 4.ed. Paris, Ed. Klincksieck, 1979.
6. BAILLY, A. - Dictionnaire grec-français, 16. ed. Paris, Lib. Hachette, 1950.

Publicado na Rev. Soc. Bras. Med. Trop. 27: 424, 2004

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

30/9/2004