HISTÓRIA DA MEDICINA 
 

EVARISTO DE PAULA: UM NOME ESQUECIDO NA HISTÓRIA
DA DESCOBERTA DA DOENÇA DE CHAGAS*


         É fato conhecido e narrado em todas as publicações que abordam a descoberta da doença de Chagas, que Carlos Chagas teve sua atenção despertada para o "barbeiro" pelo engenheiro Cornélio Homem Cantarino Motta, quando ambos pernoitaram no acampamento à margem do riacho Buriti Pequeno.

        Cantarino Mota era o Chefe da Comissão de engenheiros encarregada da construção do trecho da Estrada de Ferro Central do Brasil que levava os trilhos até a cidade de Pirapora e havia solicitado a presença ali de um médico especialista em malária, que acometia os trabalhadores, impedindo a continuação das obras. Carlos Chagas e Belisário Penna foram os médicos indicados por Oswaldo Cruz para atender a solicitação de Cantarino Motta e trasladaram-se para Lassance, uma pequena estação ferroviária nas proximidades das obras.

        Ao apresentar um exemplar do inseto, Cantarino Mota mencionara a existência dos triatomíneos nas cafuas de pau-a-pique e seu hematofagismo, sugerindo a possibilidade do "barbeiro" causar doença no homem, a semelhança do mosquito da malária. Foi a centelha que despertou o gênio de Carlos Chagas para as investigações que se seguiram. O próprio Chagas assim narra o episódio em um retrospecto histórico de sua descoberta (Mem. Inst. Oswaldo Cruz 15(1):67-76, 1922.


Sentados estão, da  esquerda para a direita, Carlos Chagas, Belisário Penna, Cantarino Motta.
e o médico Bahia da Rocha. De pé são todos engenheiros da Estrada de Ferro Central do Brasil.
(Do livro "Carlos Chagas um cientista do Brasil. Editora Fiocruz, 2009)

        "Mais de um ano permanecemos naquela zona, sem que houvéssemos sabido da existência ali, nas choupanas dos regionais, de um inseto hematófago, denominado vulgarmente barbeiro, chupão ou chupança..."Numa viagem a Pirapora, e quando pernoitávamos, Belisario Penna e eu, no acampamento de engenheiros, encarregados dos estudos da linha férrea, conhecemos o barbeiro, que nos foi mostrado por Cantarino Motta, chefe da comissão de engenheiros". E, mais adiante: "...ficamos logo interessados em conhecer o barbeiro na sua biologia exata, e principalmente em verificar a hipótese de ser ele, acaso, o transmissor de algum parasito ao homem, ou a outro vertebrado."

        O nome de Cantarino Mota ficou definitivamente associado à história da descoberta da doença de Chagas. O que habitualmente deixa de ser referido é como Cantarino Motta, que se encontrava há relativamente pouco tempo na região,  tomou conhecimento do "barbeiro" e do hábito deste inseto de sugar o sangue das pessoas à noite, enquanto dormem.

        Em entrevista concedida à revista SINGRA, em 1954 (vol. VII, no. 10) ele próprio nos revela este pormenor histórico. Reproduzimos, a seguir, o trecho da entrevista referente ao fato:

        "O seu a seu dono. Não havia eu criado aquela relação entre o barbeiro e os papudos. O coronel Evaristo de Paula dizia que não era só o mosquito que chupava o sangue da gente, mas que o "barbeiro" também o fazia. Por isso conviria evitar suas picadas, pois quem sabe se ele também não causa mal. O que transmiti, pois, a Carlos Chagas, era quase uma convicção resultante das observações feitas depois que o coronel Evaristo de Paula me chamara a atenção para o inseto hematófago".


        Já sabíamos deste fato por informação do Prof. Edmundo de Paula Pinto, parente de Evaristo de Paula e ilustre professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais. Em carta que dele recebemos, datada de 15 de janeiro de 1964, ele não só relatava o fato como nos esclarecia que "o convívio e amizade entre Cantarino Motta e Evaristo de Paula se deu em Curvelo, local 'civilizado' mais próximo de Lassance e para onde se dirigiam os engenheiros nos fins de semana".
        Cantarino Mota faleceu em 1959, aos 90 anos de idade, na cidade do Rio de Janeiro, no mesmo ano em que se comemorava o cinqüentenário da grande descoberta de Carlos Chagas e se realizava naquela cidade o I Congresso Internacional sobre a Doença de Chagas.

        Eduardo de Paula, bisneto de Evaristo de Paula, em excelente publicação on line nos dá os dados biográficos principais de seu bisavô [1].A ele devemos a foto de Evaristo que ilustra este artigo.
        Natural do município de Curvelo, MG, Evaristo de Paula nasceu em 26/5/1835 e faleceu aos 78 anos de idade, em 18/5/1913, Seu nome completo é Evaristo Antônio de Paula. O "de Paula" não é sobrenome de família; foi acrescentado ao seu nome talvez por motivo religioso. Recebeu uma boa educação para a época sob orientação do padre Antônio Dias. Ferreira. Ainda jovem trabalhou em uma propriedade rural na criação de gado, o que despertou nele o gosto e o interesse pela  atividade rural, notadamente a pecuária. Tornou-se um fazendeiro abastado, ao mesmo em que se dedicou ao comércio e à vida pública. Era um líder político e foi vereador por duas legislaturas seguidas. Pertencia à Guarda Nacional, investido no posto de Capitão. Participava ativamente das iniciativas em prol da sua cidade, tendo sido um dos fundadores da Santa Casa de Misericórdia de Curvelo, hoje Hospital Santo Antônio. Em 1918, quando grassava a epidemia de "gripe espanhola" foi criado um hospital de emergênia para atendimento da população, que recebeu o seu nome. Era uma pessoa benquista e estimada pelos seus contemporâneos. O Prof. Edmundo de Paula Pinto a ele se refere como "um mineiro simples do interior".

        Em 1954, o deputado Vasconcelos Costa apresentou à Câmara Federal o projeto de lei n. 4.900, propondo denominar "Capitão Evaristo" à estação de Tamboril da Estrada de Ferro Central do Brasil em Curvelo, "em reconhecimento à sua participação nos fatos que levaram o eminente médico brasileiro (Carlos Chagas) à feliz descoberta".

        Evaristo de Paula era casado com Ritta Cassimira Pereira da Silva. O casal teve 14 filhos, três dos quais falecidos prematuramente. Os seus descendentes preservaram o sobrenome "de Paula", tornando Evaristo de Paula o patriarca de importante e numerosa família.

        Na literatura médica por nós consultada, só encontramos referência ao papel desempenhado  por Evaristo de Paula na história da descoberta da doença de Chagas no livro de Milton Carneiro, professor de Parasitologia da Universidade Federal do Parana´(História da doença de Chagas, Curitiba, 1963).

Referência

1, Eduardo de Paula. O Capitão e sua família. Internet. Sumidoiro's Blog 8/07/2011
 

Nota: Os dados referentes a Cantarino Motta foram obtidos graças à prestimosa colaboração da Dra. Simone Petraglia Kropf, a quem muito agradecemos.

* Modificado da Rev. Patol. Tropical, 37(2)183-184, 2008.
 

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br