LINGUAGEM MÉDICA
 

FAMILIAR, FAMILIAL

        Familiar, adjetivo, tem mais de uma acepção em português. Tanto pode significar relativo à família como expressar intimidade, conhecimento prévio, aquilo com que estamos habituados a conviver. É forma antiga em português, datando, possivelmente, do século XIII.[1]

        Familial é neologismo criado na França, no século passado, segundo Bloch-Wartburg em 1865, para caracterizar as doenças de natureza hereditária que acometem mais de um membro da mesma família.[2] Do francês o termo familial passou para o inglês[3] e para outros idiomas, dentre os quais o português.

        Gonçalves Viana, linguista de grande autoridade, condenou acrimoniosamente a forma familial. São suas as seguintes palavras: "Dantes, todos os autores se contentavam com a primeira destas formas (familiar), a única verdadeira, do latim familiare. Modernamente os franceses, que já tinham familier, da mesma origem, porque este adjetivo adquiriu a acepção de trivial, e também a de confiado, que não usa deferência ou cortesia, inventaram outro adjetivo incorretíssimo, familial, impossível em latim, visto haver já a letra l no vocábulo radical e deram-lhe o sentido de relativo à família".[4]

        A norma linguística a que se refere Gonçalves Viana acha-se bem explicada em Said Ali: "Com as terminações -alis, -aris tirou o latim de substantivos inúmeros adjetivos. Procedem ambas de um antigo elemento formativo -li, trocando-se -alis em -aris por dissimilação quando havia um l prévio situado no fim do radical, ou, menos frequentemente, no meio dele ou no princípio".[5]

        Em linguagem médica esta regra pode ser observada em numerosos termos de uso comum. Com a terminação em -ar podemos citar: anular, alveolar, articular, axilar, biliar, capilar, clavicular, cuticular, ganglionar, glandular, jugular, lobular, mamilar, muscular, ocular, orbicular, ovular, pulmonar, pupilar, radicular, tonsilar, tubular, vascular, ventricular, vesicular. Observa-se a presença de l em todas as raízes.

        Com a terminação em -al encontramos: acromial, anal, arterial, braçal, braquial, bucal, dorsal, cubital, escrotal, esfenoidal, espinhal, fecal, fetal, frontal, intercostal, intestinal, hormonal, humoral, medicinal, menstrual, mitral, neural, occipital, parietal, perineal, puerperal, ventral, cujas raízes não possuem a letra l.

        Em todos os exemplos citados a formação dos adjetivos obedeceu à norma citada, cuja origem parece provir da própria eufonia da língua. Constituem exceções, entretanto, epitelial, lacrimal, luminal, umbilical, em cujas raízes encontramos o som de l. Deve-se distinguir luminal, referente à luz de uma víscera, de luminar, que tem o sentido de expoente, pessoa de grande saber.

        O neologismo familial teve por finalidade evitar ambiguidade de sentido na caracterização de uma doença. Doença familiar tanto poderia ser uma doença de caráter hereditário, como indicar a forma habitual e comum de determinada enfermidade. Familial substituía, assim, a expressão antes comumente empregada de heredo-familiar, indicativa de transmissão hereditária.

        O neologismo familial foi incorporado à linguagem literária, como atesta o seu emprego por Ramalho Ortigão e Fialho de Almeida [6][7]; à linguagem jurídica[8] e à sociologia.[9] Encontra-se registrado como sinônimo de familiar em vários léxicos contemporâneos, embora falte em muitos deles. Houaiss define familial simplesmente como "relativo à família".[10]

        Aparentemente, não foi incorporado ao espanhol; nesta língua prevalece familiar como forma única, a julgar pelo dicionário da Real Academia Espanhola. Este dicionário, em sua 19a. ed., registra 16 acepções para o vocábulo familiar, das quais a de número 5 refere-se a "cada uno de los caracteres normales o patológicos orgánicos o psíquicos que presentan varios individuos de una misma familia, transmitidos por herencia".[11]

        Em linguagem médica o neologismo francês foi defendido no Brasil por Plácido Barbosa: "...em português, tudo justifica a adoção também de um adjetivo familial, diferente de familiar, para as acepções em que se emprega o termo correspondente francês".[12] O termo foi igualmente aceito por Pedro Pinto, que o averbou em seu DicionáriodeTermos Médicos.[13]

        A palavra familial soa em português como um caso de lambdacismo, que o ouvido rejeita, e a nossa tendência instintiva é de substituí-la por familiar, muito mais eufônica e natural.

        Tudo indica, entretanto, que a forma familial é definitiva, dada a forte influência, inicialmente do francês, e atualmente do inglês, na terminologia médica.
 

Referências bibliográficas

1. CUNHA, A.G. – Dicionário etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira S.A., 1986.
2. BLOCH, O., von WARTBURG, W. - Dictionnaire étymologique de la langue française, 7.ed. Paris, Presses Universitaires de France, 1986.
3. WEBSTER’S THIRD NEW INTERNATIONAL DICTIONARY. Chicago, Enciclopedia Britanica Inc., 1966.
4. VIANA, A.R.G. - Apostilas aos dicionários portugueses. Lisboa, Liv. Clássica Ed., 1906, p. 435-436
5. SAID ALI, M. - Gramática histórica de língua portuguesa, 3.ed. São Paulo, Melhoramentos, 1964, p. 236
6. MORAIS SILVA, A. - Grande dicionário da língua portuguesa, 10.ed. (12 vol.), Lisboa, Confluência, 1949-1959.
7. FERREIRA, A.B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1999.
8. BERGO, V. - Erros e dúvidas de linguagem, 5.ed. Juiz de Fora, Ed. Lar Católico, 1959, p. 175
9. MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998.
10. HOUAISS, A., VILLAR, M.S. – Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001;
11. REAL ACADEMIA ESPAÑOLA - Diccionario de la lengua española, 19.ed. Madrid, 1970.
12. BARBOSA, P. - Dicionário de terminologia médica portuguesa. Rio de Janeiro, Liv. Francisco Alves, 1917.
13. PINTO, P.A. - Dicionário de termos médicos, 8. ed. Rio de Janeiro, Ed. Científica, 1962.
 

Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

10/9/2004.