HISTÓRIA DA MEDICINA

GASPAR VIANNA (1885-1914)

MÁRTIR DA CIÊNCIA E BENFEITOR DA HUMANIDADE



Nota de Direito Autoral:  O texto deste artigo foi publicado em 2009  no livro "À sombra do plátano" pela Editora UNIFESP. A reprodução do mesmo por meio impresso ou eletrônico requer autorização prévia da Editora [http://www.fapunifesp.edu.br fone: (11) 3369-4000]


        Em sua breve vida de apenas 29 anos, Gaspar de Oliveira Vianna consagrou-se como um dos mais geniais cientistas na história da medicina brasileira. Natural de Belém, Pará, estudou medicina na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Desde o início do curso, sentiu-se atraído para as atividades de laboratório. No segundo ano, foi aluno de Chapot-Prevost, respeitado cirurgião na época e também professor de Histologia. Além das demonstrações práticas constantes do programa curricular, Chapot-Prevost estava sempre pronto a atender pessoalmente os alunos e seu laboratório permanecia aberto, inclusive aos domingos e feriados, à disposição dos alunos interessados. Cedo, Vianna se destacava em sua turma, principalmente na parte prática, em que dominava as técnicas de preparo do material e de coloração. Organizou por iniciativa própria uma rica coleção de preparações microscópicas, que, a pedido de Chapot-Prevost, foi doada ao Laboratório de Histologia da Faculdade para fins didáticos.
        Antes mesmo de terminar o curso de graduação, Gaspar Vianna deu aulas particulares de histologia para alunos do segundo ano. Foram seus alunos Magarinos Torres e Lauro Travassos, que se tornariam igualmente grandes cientistas do Instituto Oswaldo Cruz.
        Em 1907, vagando o lugar de assistente da Seção de Patologia do Hospital Central de Alienados, Gaspar Vianna prestou concurso para preenchimento da vaga, tendo sido classificado em primeiro lugar e nomeado a seguir. Era chefe da seção o Prof. Bruno Lobo, que também contribuiu para a sua formação. Sob a orientação deste grande mestre, realizou estudos sobre a célula nervosa, que serviriam para a sua tese de doutoramento, intitulada Estrutura da célula de Schwann nos vertebrados, defendida em 1909.
        Aos poucos, como autodidata, Gaspar Vianna tornou-se exímio histopatologista aproveitando os recursos de que dispunha no laboratório do Hospital de Alienados para estudar material que coletava na Santa Casa de Misericórdia.
        Terminando o curso médico, foi convidado por Juliano Moreira, diretor do Hospital. para ali permanecer como patologista, porém Oswaldo Cruz, que já tivera informações sobre o seu potencial, o chamou para integrar a plêiade de jovens cientistas que estava arregimentando para o Instituto de Manguinhos.
        Naquele ano de 1909, Carlos Chagas havia descoberto a Tripanosomíase americana e Gaspar Vianna foi incumbido, e entusiasmou-se com a idéia, de estudar a nova enfermidade em seus aspectos anatomopatológicos. Dedicou-se em tempo integral a esta tarefa e, em pouco tempo, estabeleceu as bases da patologia da doença de Chagas. Descreveu as lesões nos tecidos parasitados e descobriu a fase evolutiva do Tripanosoma cruzi nos vertebrados, de multiplicação intracelular "por divisões binárias sucessivas sob a forma de leishmanias e sua transformação em tripanosomas ainda no interior da célula", o que corresponde, na nomenclatura atual, a amastigotas e tripomastigotas.
        Simultaneamente com seus estudos sobre a tripanossomíase, Gaspar Vianna interessou-se pela leishmaniose, endemia que grassava no oeste paulista, na região de Bauru, conhecida como úlcera de Bauru, que dificultava a abertura da via férrea ligando aquela cidade ao estado de Mato Grosso.
        Em 1909, A. Carini e U. Paranhos e, independentemente, A. Lindenberg, relataram o achado da Leishmania tropica em casos de úlcera de Bauru, identificando-a à leishmaniose de países do Oriente Médio, denominada botão do oriente.
        Em 1911, no mesmo ano em que publicava seu clássico trabalho sobre a anatomia patológica da tripanossomíase, descreveu uma nova espécie de leishmania, a que denominou Leishmania braziliensis, diferenciando-a da Leishmania tropica.
        A leishmaniose cutâneo-mucosa, uma doença grave que acomete principalmente a face e as mucosas da boca e do nariz, deformante, de evolução progressiva, não dispunha, até então, de tratamento eficaz. Apesar de ser patologista, Gaspar Vianna, inconformado com a inexistência de uma terapêutica eficaz, decidiu realizar pesquisas nesse sentido.
        Depois de experimentar sem êxito o Salvarsan, um composto de arsênico então utilizado no tratamento da sífilis, teve a idéia de usar um composto de antimônio, cuja ação parasiticida já era conhecida. Optou pelo tartarato duplo de antimônio e potássio, denominado nas farmacopéias de tártaro emético.
        O tártaro emético deve seu nome à sua ação emetizante, provocando vômitos, e foi muito usado desde a antigüidade até o século XIX, quando foi abandonado por seus efeitos tóxicos semelhantes aos dos sais de arsênico.
        Receoso de acidentes, empregou de início soluções muito diluídas, começando por 1:1.000 e aumentando progressivamente sua concentração, até 1:100, que foi bem tolerada pelos doentes. O medicamento era administrado em injeções intravenosas de 10 ml, repetidas a intervalos até a completa cicatrização das lesões. Vianna apresentou sua descoberta ao 7o. Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia, realizado em Belo Horizonte, em abril de 1912.
        Comprovada a eficácia desta terapêutica na leishmaniose cutâneo-mucosa, a mesma foi empregada com igual sucesso na leishmaniose visceral (calazar) e no granuloma venéreo.
        Em sua curta existência, realizou ainda Gaspar Vianna outros estudos sobre várias espécies de tripanosomas, sobre o ainhum, a moléstia de Posadas-Wernick e algumas micoses. Em colaboração com Arthur Moses, descreveu uma nova micose humana causada por um fungo ainda não descrito, o Proteumyces infestans.
        Gaspar Vianna era um trabalhador infatigável, que se dedicava de corpo e alma às pesquisas que empreendia. Seu prematuro falecimento decorreu de seu próprio trabalho. Em abril de 1914, ao realizar a autópsia de um caso de tuberculose pulmonar, incisou o tórax e a pleura e recebeu no rosto um jato do líquido que se encontrava sob pressão na cavidade torácica. Poucos dias depois manifestou os sintomas de tuberculose miliar aguda, vindo a falecer dois meses após o incidente, em 14/6/1914.
        Gaspar Vianna é considerado um mártir da ciência e um benfeitor da humanidade por sua descoberta da cura da leishmaniose, que causava milhares de vítimas em todo o mundo.

Publicado em Ética Revista 5(1):21-22, 2008


Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br