LINGUAGEM MÉDICA
 

HAJA VISTA

        Do noticiário: "O número de casos de AIDS está aumentando além das previsões; haja visto os casos notificados nos últimos três meses".
        A expressão haja visto é incorreta. Deve-se dizer haja vista, conforme o entendimento dos gramáticos e estudiosos da língua portuguesa.
        Rui Barbosa, citado como paradigma, usou esta expressão em várias passagens de suas obras:

        "Haja vista as minhas cartas de Inglaterra [1]
        "Haja vista os Estados Unidos" [2]
        "Haja vista o artigo 182, que abrange quatro páginas [3]

        Na definição de Mendes de Almeida "haja vista é uma locução invariável, perifrástica, transitiva, equivalente a veja, que tem como objeto direto a palavra ou palavras que se lhe seguem" [4].
        Para Cândido Jucá (filho) trata-se de uma "expressão verbal relativamente moderna para significar veja, verbi-gratia, a saber, por exemplo..." [2].
        Segundo Pedro Pinto equivale à expressão "tenha-se em vista, sob os olhos" [3].
        É o mesmo que "considere-se, leve-se em conta", ensina Francisco da Silva Borba [5].
        Machado Filho considera haja vista uma expressão petrificada, que equivale pura e simplesmente a veja [6].
        Há divergência quanto à flexão do verbo haver. Para alguns autores, o verbo deve concordar com o substantivo que vem a seguir. Assim, se o substantivo estiver no plural, o verbo também deve ser usado no plural. Ex.: "Hajam vista as demonstrações" [7,8]. Esta interpretação, entretanto, não é compartilhada por outros linguistas, que admitem possa o verbo haver permanecer invariável: "Haja vista as demonstrações" [9].
        Todos estão de acordo em um ponto: na condenação da forma haja visto.
        Haja vista a advertência que se encontra no Novo Aurélio: "Evite-se a construção haja visto, incorreta" [10].

Referências bibliográficas

1. MARTINS FILHO, E.L. - Manual de Redação e Estilo. São Paulo, Ed. Maltese,1992, p. 180.
2. JUCÁ (filho), C. - Dicionário Escolar das Dificuldades da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, 1965, p. 337.
3. PINTO, P.A. - Regências de verbos na Réplica de Rui Barbosa. Rio de Janeiro, Ed. "Organização Simões", 1952, p. 84.
4. ALMEIDA, N.M. - Dicionário de Questões Vernáculas. São Paulo, Ed."Caminho Suave", 1981, p. 134.
5. BORBA, F.S. - Dicionário Gramatical de Verbos do Português Contemporâneo do Brasil. São Paulo, UNESP, 1990, p.807.
6. MACHADO FILHO, A.M. - Novas Lições de Português. Coleção "Escrever Certo", 2.ed., vol. II, São Paulo, Boa Leitura Ed., 1966, p.145.
7. CALBUCCI, E. Questiúnculas de Português. São Paulo, Revisora Gramatical, 1953, p.41.
8. BERGO, V. - Erros e Dúvidas de Linguagem, 5.ed., Juiz de Fora, Ed. Lar Católico, 1959, p. 196.
9. LEDUR, P.F. - Português Prático. Porto Alegre, Ed. Sulina, 1990, p.101.
10. FERREIRA, A.B.H. - Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1999, p. 2.080.
   
Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

10/9/2004.