HISTÓRIA DA MEDICINA


HENRIQUE ARAGÃO

UM NOME FESTEJADO NA AUSTRÁLIA


Nota de Direito Autoral:  O texto deste artigo foi publicado em 2009  no livro "À sombra do plátano" pela Editora UNIFESP. A reprodução do mesmo por meio impresso ou eletrônico requer autorização prévia da Editora [http://www.fapunifesp.edu.br fone: (11) 3369-4000]


HENRIQUE ARAGÃO (1879-1956)

        Dentre os pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz, Henrique de Beaurepaire Rohan Aragão é um nome de destaque na comunidade científica internacional por duas grandes descobertas: o ciclo exoeritrocitário do parasito da malária e a mixomatose do coelho, que permitiu o controle biológico desse roedor na Austrália.
        Seu sobrenome francês é de origem materna em terceira. geração. Seu avô materno, Marechal Henrique de Beaurepaire Rohan, já era brasileiro e teve ativa participação na vida política e cultural da Nação, tendo sido cartógrafo e autor de um "Dicionário de Vocábulos Brasileiros".1
        A vida de Henrique Aragão é parte da história de Manguinhos. Nascido em Niterói em 1879, concluiu o curso médico na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1905. A exemplo de Carlos Chagas, desenvolveu sua tese de doutoramento no Instituto Oswaldo Cruz, ao qual ligou-se desde 1903, ainda como estudante, ali permanecendo até sua aposentadoria, galgando todas as posições naquela Instituição, desde assistente, chefe de serviço, professor e, finalmente, diretor.2
        Em 1907, quando contava 28 anos de idade, ao estudar a malária aviária no pombo realizou sua primeira grande descoberta, a do ciclo exoeritrocitário do hematozoário (Haemoproteus columbae), antecipando a ocorrência de idêntico ciclo na malária humana, o que foi comprovado, 30 anos depois, pelo cientista inglês Percy Garnham ao descrever o ciclo hepático do plasmódio.3

        Olympio da Fonseca Filho narra que, ao visitar o Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo, em 1952, ouviu do decano dos protozoologistas alemães, Prof. Reichnow, palavras de elogio e admiração pelo trabalho de Henrique Aragão, "tão jovem e já famoso".4
        Em 1909 e 1910 Aragão realizou estudos na França e na Alemanha, especialmente no Instituto Zoológico de Munich. Ao retornar ao Brasil, dedicou-se inteiramente à pesquisa, interessando-se por diversos campos do conhecimento. Sua produção científica é abrangente e diversificada nas áreas da parasitologia, virologia e biologia em geral. Ocupou-se tanto da pesquisa aplicada aos problemas de saúde pública da época, conforme a orientação do Instituto, quanto da pesquisa básica, quando dispunha de tempo.
        Trabalhou na profilaxia da malária e desenvolveu estudos sobre a leishmaniose tegumentar, amebíase intestinal, parasitoses do homem e dos animais, febre amarela e outras viroses.
        Em 1911 teve sua atenção despertada para o mixoma do coelho, doença letal que acomete esta classe de roedores e que havia sido descrita por Sanarelli em Montevidéo, em 1896. Estudando-a em coelhos de seu laboratório, verificou ser a mesma produzida por um vírus que poderia ser transmitido de um animal a outro pela picada de insetos. Essa descoberta teve repercussão internacional e beneficiou especialmente a Austrália.5
        Para compreender o alcance da identificação e isolamento do vírus do mixoma do coelho, é necessário conhecer um pouco da história da introdução desse roedor na Austrália e suas conseqüências.
        Em 1859, um inglês, Thomas Austin, que se mudara para a Austrália, importou da Inglaterra 24 coelhos silvestres para que se reproduzissem e ele pudesse continuar a praticar seu esporte preferido - a caça. Os coelhos encontraram na Austrália clima e condições ideais para se reproduzirem e proliferaram de maneira incontrolável, tornando-se uma praga. Devastavam as plantações e a vegetação nativa, competindo com outros mamíferos herbívoros, causando redução dos rebanhos de carneiro e declínio da produção da lã, provocando erosões do solo e diminuição da produção agrícola. A população os combatia pela caça, armadilhas, envenenamento, sem qualquer resultado prático.
        Em 1919, Henrique Aragão escreveu ao Governo da Austrália, sugerindo o controle biológico, inoculando alguns coelhos com o vírus do mixoma, que ele havia isolado e que se prontificava a fornecer, introduzindo no país uma doença altamente letal para o coelho. As autoridades sanitárias da Austrália relutaram por muitos anos a importar o vírus, temendo consequências imprevistas. Somente em 1950, graças a persuasão de cientistas australianos, o Governo decidiu autorizar o método proposto por Aragão. Ao final de dezembro de 1950 foram inoculados alguns coelhos que foram soltos. O vírus se espalhou rapidamente pelo País, causando verdadeira epidemia de mixomatose entre os coelhos. A população de roedores, estimada em 600 milhões de animais, foi rapidamente reduzida para cerca de 100 milhões, permitindo a revegetação do solo e o restabelecimento do equilíbrio ecológico em muitas regiões. Posteriormente, verificou-se queda da mortalidade dos coelhos infectados em 50%, ou por mutação do vírus ou pela imunidade adquirida dos animais.6
        Em seus estudos sobre a leishmaniose tegumentar, Aragão demonstrou, pela primeira vez, a possibilidade de sua transmissão por flebótomos; ao estudar as doenças eruptivas virais da infância, comprovou que a varicela e o alastrim são causados por vírus distintos; descreveu parasitos de plantas e ainda desenvolveu uma vacina contra a espiroquetose aviária.
        Em 1928 surgiu nova epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro e Aragão, embora sem êxito, trabalhou exaustivamente na tentativa de produzir uma vacina antiamarílica, chegando a passar noites em seu laboratório em Manguinhos.
        Para coroamento de sua carreira, Henrique Aragão foi Diretor do Instituto Oswaldo Cruz de 1942 a 1949. Em sua administração, o Instituto, dando continuidade às propostas do Serviço de Estudo das Grandes Endemias criado por Evandro Chagas, expandiu suas atividades no interior do País com a criação do posto de saúde para estudo da esquistossomose em Pernambuco e o posto para estudo da doença de Chagas, em Bambuí, MG, hoje "Centro Avançado de Estudos Emmanuel Dias". Neste Centro foram feitos importantes estudos clínicos e epidemiológicos sobre a Tripanosomíase e iniciadas as primeiras experiências de combate aos triatomíneos pela borrifação das casas com inseticidas de ação residual.
        Também na sua administração, no período da II Guerra Mundial, o Instituto ampliou sua produção industrial de medicamentos e iniciou a fabricação da penicilina. Com a penicilina ali produzida, em ampolas de apenas 300 unidades, Nery Guimarães descobriu a cura da bouba, hoje praticamente extinta do País.
        Aposentado compulsoriamente por idade em 1950, Aragão dedicou os últimos anos de sua vida ao estudo e classificação dos ixodídeos (carrapatos). Permaneceu em atividade até uma semana antes de seu falecimento, que se deu a 26 de fevereiro de 1956, aos 77 anos de idade.7
        O Instituto de Medicina Tropical de Hamburgo outorgou-lhe a medalha Nocth, láurea só concedida a cientistas que tenham se destacado por contribuições relevantes à medicina tropical.
        O Instituto Oswaldo Cruz possui um pavilhão com o seu nome e o homenageou com dois seminários em sua memória, o primeiro em 1979, no centenário de seu nascimento, e o segundo em 2007, em comemoração ao centenário de sua descoberta do ciclo exoeritrocitário do parasito da malária.
 


Referências bibliográficas

 
1. Mário B. Aragão.  "Henrique de Beaurepaire Rohan Aragão". Cadernos de Saúde Pública 2 (3): pp. 375-379, 1986
2. Renato Clark Bacellar.  Brazil's contribution to tropical Medicine and Malaria, 1940, pp.185-188.
3. Henrique B. A. "Sobre o ciclo evolutivo e a transmissão do hemoproteus culumbae". Revista Médica de S. Paulo, 11(20): 409-416, 1908
4. Olympio da Fonseca, filho. "A Escola de Manguinhos". In Edgard C. Falcão. Oswaldo Cruz Monumenta historica, t. II, p. 43
5. Renato Clark Bacellar, op. cit.
6. Wikipedia. Rabbits in Australia. Internet. Disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Rabbits_in_Australia.
7. Mário B. Aragão, op. cit.


Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br