LINGUAGEM MÉDICA

 

IMUNODEPRESSÃO, IMUNOSSUPRESSÃO

 

          Os dois termos acima têm sido empregados indistintamente para caracterizar a deficiência do sistema imunitário. Embora tenham o mesmo conteúdo semântico, como termos médicos não devem ser considerados sinônimos. Quando devemos empregar um ou outro?

     Define-se imunodepressão como um estado de deficiência do sistema imunitário para responder normalmente aos agentes agressores, A imunodepressão pode ser primária e secundária ou adquirida (1,2). É primária quando dependente de fatores genéticos hereditários que afetam o processo de defesa imunológica, causando maior susceptibilidade às infecções, geralmente por germes de baixa patogenicidade, assim, às doenças autoimunes e às neoplasias. Na maior parte das vezes manifesta-se na infância.

      A forma adquirida, como o próprio nome indica, deve-se a um fator externo que afeta o sistema imunológico e é exemplificada pela Síndrome de Imunodeficiência Adquirida causada pelo vírus HIV-1; manifesta-se igualmente por grande susceptibilidade às infecções por germes oportunistas e neoplasias.  

        Imunossupressão é o ato de reduzir deliberadamente a atividade ou eficiência do sistema imunológico.

A imunossupressão é geralmente feita para coibir a rejeição em transplantes de órgãos, ou para o tratamento de doenças autoimunes como lúpus, artrite reumatóide, esclerose sistêmica, doença inflamatória intestinal, entre outras. A imunossupressão é normalmente feita com medicamentos, mas pode também utilizar outros métodos, como plasmaferese ou radiação. Com o sistema imunológico praticamente desativado, o indivíduo imunossuprimido fica  vulnerável a infecções oportunistas.

A cortisona foi o primeiro imunossupressor a ser usado, porém sua ampla gama de efeitos colaterais limitou seu uso. A azatioprina, mais específica, foi lançada em 1959. A descoberta da ciclosporina em 1970 permitiu significativa expansão dos procedimentos de transplantes de rim, fígado, pulmão e coração.

     Dentre os dicionários modernos, o Aurélio (3) considera sinônimos imunodepressão e imunossupressão, dando preferência a imunodepressão para rotular todos os casos de imunodeficiência.

         Houaiss diferencia muito bem os dois termos (4). Vejamos o que diz o mestre:

        imunodepressão

atenuação das reações imunitárias do organismo, que se observa no curso de certas doenças, como câncer, AIDS etc. [A imunodepressão é impropriamente tomada por alguns como sinônimo de imunossupressão]

 Obs.: cf. imunossupressão

imunossupressão

supressão das reações imunitárias do organismo, induzida por medicamentos (corticosteróides, ciclosporina A etc.) ou agentes imunoterápicos (anticorpos monoclonais, soros antilinfocitários etc.), que é utilizada em alergias, doenças auto-imunes etc. [A imunossupressão é impropriamente tomada por alguns como sinônimo de imunodepressão.]

 Obs.: cf. imunodepressão

Esta distinção nem sempre é observada por autores de artigos científicos indexados na base de dados da BIREME. Citaremos dois exemplos em que se usou imunodepressão por imunossupressão e dois outros em que ocorreu o inverso. 

            Imunodepressão por imunossupressão:

1. Carvalho, João Batista Vieira de; Petroianu, Andy. Imunodepressão induzida por talidomida e ciclosporina em transplante cardíaco heterotópico de coelho.  Rev. Col. Bras. Cir;30(2):106-113, 2003.  

2. Garcia, Maurício; Sertório, Silvio P; Alves, Glaucie J; Chate, et al. Uso da ciclofosfamida em modelo de imunodepressão experimental em ovinos. Pesqui. vet. bras = Braz. j. vet. res;24(3):115-119, 2004. 

Imunossupressão por imunodepressão:

         1. Böelke, Maristela. Imunossupressäo induzida pela malária: existe um papel para o óxido nítrico?  Rev. bras. alergia imunopatol; 22(6):173-8, 1999.

2. Silva, Luciana Almeida; Vieira, Roseli Stone; Serafini, Luciano Neder et al.

Toxoplasmose do sistema nervoso central em paciente sem evidência de imunossupressäo: relato de caso. Rev. Soc. Bras. Med. Trop;34(5):487-490, set.-out. 2001.

Outros autores, como Luis Rey,(5) consideram imunodepressão um termo de sentido mais amplo e imunossupressão um termo mais específico, como se depreende do exposto no verbete imunodepressão de seu dicionário: ...”Ela pode ser decorrente de processos patológicos ou da utilização terapêutica de produtos e técnicas imunossupressoras”. E no verbete imunossupressão inclui a “inibição espontânea da resposta normal do sistema imunológico frente a certos antígenos”.

A bem da uniformidade e da precisão da linguagem médica, somos de parecer que se deve adotar a distinção entre os dois termos, tal como se encontra no dicionário Houaiss.

 

Referências bibliográficas

 

  1. VASCONCELOS, Deaton de Moraes. Imunodeficiências primárias. Conceitos gerais. In LOPES, Antonio Carlos. Tratado de Clínica Médica, 2ª. ed., São Paulo, Ed. Roca, 2009, p. 3.652
  2. CASSEB, Jorge, DUARTE, Alberto José da Silva. Imunodeficiência adquirida. In LOPES, Antonio Carlos. Tratado de Clínica Médica, 2ª.ed. São Paulo, Ed. Roca, 2009, p. 3.704.
  3. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa, 3.ed. Curitiba, Ed. Positivo, 2004.
  4. HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles – Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
  5. REY, Luís. Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde, 2ª. ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan S.A., 2003.

 

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br   

27/03/2011