LINGUAGEM MÉDICA
 

INFLUENZA e GRIPE


A terminação –enza não é própria da língua portuguesa. Segundo Houaiss é encontrada em apenas 12 verbetes, a maioria dos quais regionalismos derivados de línguas africanas. (1) São exceções “licenza” e “influenza”, de origem italiana, que fazem parte das chamadas “palavras sem fronteira” (2) usadas igualmente em outros idiomas. Não faz sentido a proposição do lexicógrafo José Pedro Machado de usar-se influença em português.(3)

Influenza, em italiano, tem o mesmo significado geral de influência, porém, como termo médico, tornou-se sinônimo de gripe. O termo provém do latim medieval influentia, do verbo influo, influere, correr para, penetrar.

A questão linguística que se levanta é saber as razões que levaram ao emprego dessa palavra na nosografia médica. O que estaria exercendo influência no aparecimento da enfermidade? Vinda de onde e qual a sua natureza?

Marcovecchio, em seu Dizionario etimologico storico dei termini medici refere que a palavra foi empregada pela primeira vez como termo médico por Matteo Villani em 1358, com base na crendice popular de que se tratava de uma calamidade causada por “influência oculta dos céus” (ab occulta coeli influentia). (4)

Inicialmente usada para mais de uma enfermidade, indistintamente, influenza restringiu-se posteriormente a uma só doença bem caracterizada, que corresponde à gripe viral da atualidade. Utilizada por Thomas Syndenham, em 1675, em sua obra em latim, seu uso generalizou-se após a epidemia que ocorreu na Itália em 1743 (4). Em inglês foi empregada pela primeira vez em 1750 por John Husham em seu livro On Essay on fthe fevers (1750). Atualmente usa-se em inglês uma forma abreviada em flue ou simplesmente flu. (5) Em 1782 o termo passou intacto para o francês (6) e em 1890 para o português (1).

Mas, voltemos à questão inicial. O que influenciaria o aparecimento da enfermidade em sua forma epidêmica?

A interpretação mais aceita é de que a influência vinda dos céus procede dos astros, na dependência da configuração dos planetas e das estrelas.(7,8,9)

Em que pese o grande prestígio da astrologia na Idade Média, devemos nos lembrar que as grandes epidemias do passado sempre foram consideradas flagelos inflingidos por Deus à humanidade como castigos por seus pecados. Coincidentemente, o termo influenza surgiu no mesmo século da peste negra, a maior e mais mortífera das epidemias da História.

Assim, parece razoável interpretar a “influência oculta dos céus” como força sobrenatural advinda do poder de Deus e não dos astros. A ortodoxia imperante no cristianismo medieval favorece esta interpretação.

Há ainda duas outras explicações, que se atêm a causas terrenas, sobre o emprego de influenza como termo médico. Uma delas se fundamenta no fato de que, em italiano, até o século XV, usava-se a palavra para definir o contágio de uma doença, ou seja, a influência que uma pessoa doente exercia sobre outra na propagação da enfermidade.(10). A outra, que conta com um número maior de adeptos e é a única citada no Aurélio (11), relaciona os surtos da doença com as variações climáticas e tem como argumento a maior incidência da doença no inverno e nas regiões de clima frio e úmido. Conforme o historiador Moacyr Scliar “ela (a doença) era associada ao frio. O termo influenza, que é usado como sinônimo para gripe, fala disso. Vem do italiano ‘influenza di freddo’” (12)

Gripe provém do francês grippe, palavra existente neste idioma desde o século XIII com outras acepções. Como termo médico foi empregado a partir de 1743. Segundo Bloch e Wartburg, a doença foi assim chamada por seu início súbito (13). Para Corominas, entretanto, o termo vincula-se ao suíço-alemão grüpen, acocorar-se, tremer de frio, estar mal. Do francês gripe passou para o português em 1881 e para o espanhol em 1897 (14).

Na linguagem popular usa-se, de preferência, gripe, em lugar de influenza. Na literatura médica brasileira, no entanto, predomina influenza, conforme documenta o acervo de artigos indexados pela BIREME. Em 403 trabalhos publicados, 469 usaram influenza no título e somente 75 optaram por gripe (15).

Referências bibliográficas

  1. HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001
  2. CORREA DA COSTA, Sérgio. Palavras sem fronteiras. Rio de Janeiro, Ed. Record, 2000.
  3. MACHADO, José Pedro. In MORAIS SILVA, Antonio. Grande dicionário da língua portuguesa, 10.ed. (12 vol.), Lisboa, Confluência, 1 949-1959.
  4. MARCOVECCHIO, Enrico - Dizionario etimologico storico dei termini medici. Firenze, Ed. Festina Lente, 1993
  5. .MORTON, Leslie T.A medical bibliography (Garrison and Morton), 4.ed. London, Gower, 1983. p. 284.
  6. ROBERT, P.Dictionnaire alphabétique et analogique de la langue française. Paris, Dictionnaires Le Robert, 1987.
  7. HAUBRICH, William S. Medical meanings. A glossary of word origins. PhiladelphiaAm.College of Physicians, 1997.
  8. SKINNER, Henry A.The origin of medical terms, 2.ed. Baltimore, Williams, Wilkins, 1961
  9. TUOTO, Elvio A. A origem dos termos “Influenza e gripe”. Internet.
    Disponível em
    http://historyofmedicine.blogspot.com/2009/08/origem-dos-termos-influenza-e-gripe.html Acesso em 30/08/2009.
  10. SOCA, Ricardo. Influenza. Internet. Disponível em http://www.elcastellano.org/palabra.php?q=influenza Acesso em 30/08/2009
  11. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da língua portuguesa, 3.ed. Curitiba, Ed. Positivo, 2004.
  12. SCLIAR, Moacyr. A fúria da gripe espanhola. Internet. Disponível em http://historia.abril.com.br/fatos/furia-gripe-espanhola-433549.shtml Acesso em 30/08/2009.
  13. BLOCH, Oscar, VON WARTBURG, Walther.Dictionnaire étymologique de la langue française 7.ed. Paris, Presses Universitaires de France, 1986.
  14. COROMINAS, Juan - Breve diccionario etimológico de la lengua castellana, 3.ed., Madrid, Ed. Gredos, 1980.
  15. BIREME. Internet. Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/ Acesso em 30/08/2009


Publicado na Revista de Patologia Tropical  38(4):291-293, 2009              

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

30/08/2009