LINGUAGEM MÉDICA


LAUDAR,  LAUDADO

 

            Laudar é um verbo inexistente nos léxicos da língua portuguesa, assim como o seu particípio laudado em função adjetiva.

         Simônides Bacelar, em seus estudos sobre expressões e termos médicos, chama a atenção para o uso de ambos os termos na linguagem médica atual: laudar na acepção de emitir um laudo, e laudado para caracterizar o exame que já foi analisado e se acompanha do respectivo laudo. Trata-se de neologismos como ele bem acentuou [1]

       Etimologicamente, laudo provém do verbo latino laudo, laudare, que significa elogiar, enaltecer, exaltar. De laudare derivam louvar, em português, lodare, em italiano; louer, em francês, e as formas divergentes loar e laudar, em espanhol.

Herdamos também do latim os adjetivos laudável, laudatório, laudativo, laudatício e outros cognatos de louvar.

Do presente do indicativo do verbo latino laudo (eu louvo) procede o substantivo laudo. Houaiss define laudo como “texto contendo parecer técnico (de médico, engenheiro etc.) e, por metonímia, “suporte (p.ex., folha de papel, documento) em que está exarado tal parecer.”[2]

 Qual seria a razão de uma palavra latina que exprime louvor, elogio, encômio, adquirir, na sua passagem para o português, a acepção de parecer, sentença, opinião?

            O elo oculto entre as duas acepções talvez possa ser encontrado na linguística diacrônica. O primeiro registro da palavra laudo, segundo Houaiss, data de 1858.[2] Os dicionários mais antigos (Domingos Vieira, 1874; Caldas Aulette, 1881; Cândido de Figueiredo, 1899; Simões da Fonseca, 1926) definem laudo como parecer, voto, decisão do juiz louvado.

O juiz encarregado de julgar, de dar uma sentença, era chamado de juiz louvado ou simplesmente louvado. Por extensão semântica, a qualificação de louvado estendeu-se aos árbitros e peritos, em geral, conforme se documenta na 10ª. edição do Dicionário de Moraes Silva, de 1954.

Louvado. Indivíduo nomeado especialmente para avaliar e examinar qualquer coisa e dar o seu laudo ou informação; perito, árbitro.” [3]

Esta sinonímia perdura até o presente e é abonada em muitos léxicos, dentre os quais o Aurélio, em sua última edição, onde se lê: [4]

 “Laudo
1. Parecer do louvado ou árbitro; louvação, louvamento.
2. Peça escrita, fundamentada, na qual os peritos expõem as observações e estudos que fizeram e registram as conclusões da perícia.”

Em linguagem jurídica denomina-se louvado ao perito escolhido pelas partes em litígio. [5]

Parece razoável, assim, deduzir porque o documento produzido por um louvado seja chamado de laudo (eu louvo).

Voltando ao silogismo, verifica-se que o mesmo tem sido usado principalmente em relação aos exames de imagem e registros gráficos. Embora não tenha se incorporado ao vocabulário das publicações científicas, sua aceitação vem se expandindo na linguagem informal e nos meios de comunicação.

Em toda a literatura médica indexada pela BIREME até o presente, há 206 ocorrências da palavra laudo,[6] e apenas uma do verbo laudar.[7] Em compensação, no site de busca GOOGLE, a expressão exames laudados aparece em 749 referências, todas no português do Brasil.[8] No português de Portugal ainda não há registro do verbo laudar no vocabulário médico.[9]

A possibilidade de sobrevivência deste neologismo e sua incorporação definitiva à linguagem médica tem a seu favor dois fatores importantes: o primeiro deles é que o mesmo obedece às normas de derivação de palavras oriundas do latim; o segundo é a lei da economia ou do menor esforço, que leva à simplificação da linguagem. É muito mais simples dizer laudar um exame, do que dar ou emitir o laudo de um exame; referir-se a um exame laudado do que a um exame com o respectivo laudo.

 

 

Referências bibliográficas

 

1. BACELAR, Simônides. Questões de linguagem médica. Exame laudado. Rev. Paraense Méd. 21(3): 81, 2007.
2. HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles – Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
3. MORAIS SILVA, Antonio de. Grande dicionário da língua portuguesa, 10.ed., vol. 6, Lisboa, Confluência, 1954.
4. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário Aurélio da l´´ingua portuguesa, 3.ed. Curitiba, Ed. Positivo, 2004.
5.  PLÁCIDO E SILVA, De. Vocabulário Jurídico, 9.ed., Rio de Janeiro, Forense, 1986.
6. BIREME. Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/ Acessado em 28/04/2010.
7. SEMENTILLI, Ângelo,  et al.  Patologia do transplante renal: achados morfológicos principais e como laudar as biópsias  J. bras. patol. med. lab, 44(4):293-304, 2008.
8. INTERNET. GOOGLE. Disponível em http://www.google.com.br/advanced_search?hl=pt-BR  Acessado em 28/04/2010.
9. Idem, ibidem.

 

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br 

28/04/2010.