LINGUAGEM MÉDICA
 

NORMALIZAR, NORMATIZAR

        Os dois verbos acima por vezes são usados um pelo outro, indiferentemente, como sinônimos. Muito embora Houaiss admita a sinonímia,[1] outros lexicógrafos estabelecem diferença semântica entre eles.[2-4]
        Historicamente, ambos são de introdução relativamente recente na língua portuguesa, sendo que normalizar é mais antigo do que normatizar. Mesmo sendo o mais antigo, ele não é mencionado nos dicionários do século XIX, nos quais encontramos tão somente o adjetivo normal e, a partir de 1873, com o dicionário de Domingos Vieira, também o adjetivo normativo, uma adaptação do francês normatif. [5]
        O verbo normalizar só aparece no século XX, a partir do léxico de Simões da Fonseca, [6] até os atuais.
        Normatizar, porém, somente é encontrado nos dicionários mais recentes, como o Houaiss, Aurélio sec. XXI, Michaelis, e o de Francisco Borba.
        À exceção do Houaiss, que, dentre as acepções de normalizar inclui a de normatizar, os três outros léxicos citados estabelecem significados diversos para os dois verbos. Vejamos o que se lê em cada um deles:

        AURÉLIO
        Normalizar [De normal + izar]. V.t.d. 1. tornar normal; fazer voltar à normalidade; regularizar. 2. Submeter a norma ou normas; padronizar. 3. Int. Retornar à ordem. 4. Voltar ao estado normal (Cf. normatização).
        Normatizar [Do lat. normatus, p.p. de normare + sufixo izar] V.t.d. Estabelecer normas para. Submeter a normas (Cf. normalizar).

        MICHAELIS
        Normalizar (normal + izar) vtd. 1. Tornar normal, regularizar. 2. Reentrar na ordem, voltar à normalidade.
        Normatizar (norma + izar). Estabelecer normas para (cf. normalizar).

        F. BORBA
        Normalizar V.[Ação-processo] 1. tornar normal; regularizar; 2. reentrar na normalidade.
        Normatizar V.[Ação-processo] estabelecer normas para.

        No português de Portugal usa-se normativizar, em lugar de normatizar, aparentemente um derivado de normativo + sufixo izar. [7]
        Vê-se que somente o verbo normatizar tem a acepção explícita de estabelecer normas.
        Em biblioteconomia, por influência da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), usa-se normalização em lugar de normatização. [8]
       É preferível, no entanto, empregar o verbo normalizar e seus cognatos somente na acepção tradicional de tornar normal, de voltar à normalidade, e normatizar para expressar a ação de estabelecer normas, regras, regulamentos, rituais etc.
        Em um levantamento dos artigos científicos indexados pela BIREME nos últimos 20 anos, encontramos 48 que utilizaram, no título, corretamente, o termo normatização, 12 que empregaram normalização com  o sentido de "voltar ao normal" e apenas cinco na acepção de "estabelecer normas", em substituição a normatização.[9]
        Assim, em um total de 53 trabalhos publicados, somente 9,4 % usaram normalização por normatização.
        Estes dados nos permitem concluir que a literatura médica brasileira incorporou acertadamente a diferenciação semântica entre os dois verbos.
 

Referências bibliográficas

1 HOUAISS, A., VILLAR, M.S. – Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001
2. FERREIRA, A.B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1999.
3. MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998.
4. BORBA, F. S. – Dicionário de usos do português do Brasil. São Paulo, Editora Ática, 2002.
5. VIEIRA, D.- Grande dicionário português ou Tesouro da língua portuguesa. Porto, Ernesto Chardron e Bartholomeu H. de Moraes, 1871-1874.
6. FONSECA, S., RIBEIRO, J. - Novo diccionaio encyclopedico illustrado da lingua portugueza. Rio de Janeiro, Liv. Garnier, 1926.
7. ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA - Dicionário da língua portuguesa contemporânea. Lisboa, Ed. Verbo, 2001.
8. INSTITUTO BRASILEIRO DE DOCUMENTAÇÃO CIENTÍFICA – Normalização da documentação no Brasil. Rio de Janeiro, IBBD, 1966.
9. BIREME – Internet. Disponível em http://bases.bireme.br/ em 31/12/2004
 

Publicado na Revista de Patologia Tropical 34(1):73-74, 2005               

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br