LINGUAGEM MÉDICA
 

PULMÃO, PULMONIA, PNEUMONIA

        Quando rastreamos a origem dos termos médicos, verificamos que muitos deles expressam atributos, qualidades ou funções dos órgãos que designam. Os termos populares correspondentes, por sua vez, podem ter formação semelhante, ora coincidente com a idéia que presidiu a criação do termo técnico, ora resultante de outra característica ou função do órgão.

        São muitos os termos assim formados e, como exemplo, citaremos o do órgão da respiração.

        Nas línguas neolatinas, este órgão é designado por nomes derivados do latim pulmo, onis. Assim, temos: pulmão em português, pulmón em espanhol, polmone em italiano, poumon em francês.

        Em grego clássico o pulmão era primitivamente denominado pleûmon, [1] em aparente relação com o verbo pléo, navegar, flutuar. Pleûmon passou a pneumon, possivelmente por influência de pneuma, nome que designava o princípio essencial à vida contido no ar atmosférico e que entra no organismo através dos pulmões.(corresponde ao oxigênio na ciência moderna). Pela mesma razão pulmonia, de raiz latina, passou à pneumonia. O termo pulmonia, todavia, ainda sobrevive nos léxicos como variante de pneumonia.

        Apesar da semelhança entre o grego pleûmon e o latim pulmo, onis, não há certeza de que o termo latino seja oriundo do grego.[2]

        Nas línguas anglo-saxônicas usam-se termos com a raiz lung: lung em inglês, lunge em alemão, lunga em sueco. O vocábulo lung expressa o pouco peso do pulmão em relação a outras vísceras, em virtude de sua estrutura esponjosa e presença de ar, o que lhe confere a propriedade de flutuar na água.[3]

        Em abono desta interpretação cita-se o uso de lights em inglês, em substituição a lungs para designar os pulmões de animais, como boi, carneiro, porco, etc., quando utilizados como alimentos, especialmente para cães e gatos.[4] Em espanhol também se emprega livianos em lugar de pulmões quando se trata de animais.[5]

        Em linguagem popular, tanto em português como em espanhol, o pulmão é chamado  bofe, usado quase sempre no plural - os bofes.

        Bofe procede de bofar variante de bufar, verbo de criação onomatopaica que exprime a ação de soprar com a boca semicerrada, produzindo expiração forçada e ruidosa.[6] Parece natural e lógico denominar bofe ao órgão que possibilita o ato de bufar.

        Vemos, assim, em suas origens, que tanto o termo grego pleûmon, como o anglo-saxônico lung, expressam uma das qualidades do pulmão, que é o seu pouco peso e sua estrutura esponjosa que o faz flutuar na água. Já o termo bofe, de uso popular, fundamenta-se em outra propriedade do pulmão, que é a sua capacidade de expandir-se com a respiração, possibilitando o ato de soprar.
 

Referências bibliográficas

1. LIDDELL, H.G., SCOTT, R. - A greek-english lexicon, 9.ed., Oxford, Claredon Press, 1983.
2. ERNOUT, A. , MEILLET, A. - Dictionnaire étymologique de la langue latine. Histoire des mots, 4.ed. Paris, Ed. Klincksieck, 1979.
3. SKINNER, H.A. - The origin of medical terms, 2.ed. Baltimore, Williams, Wilkins, 1961, p. 258
4. OXFORD ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 3.ed. Oxford, Claredon Press, 1978.
5. COROMINAS, J. - Breve diccionario etimológico de la lengua castellana, 3.ed., Madrid, Ed. Gredos, 1980.
6. CUNHA, A.G. - Dicionário etimológico. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982.

 Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

10/9/2004