LINGUAGEM MÉDICA
 

REMODELAÇÃO, REMODELAGEM, REMODELAMENTO

        Conforme nos esclarecem os léxicos, remodelação, remodelagem e remodelamento derivam do verbo remodelar, formado, por sua vez, do prefixo re + o verbo modelar.
        Modelar vem de modelo, aquilo que serve de padrão para ser imitado. Remodelar é "tornar a modelar" para introduzir modificações no modelo anterior com o objetivo de renovar a aparência, a forma ou a funcionalidade: remodelar uma casa, uma biblioteca, um utensílio, um vestuário etc.
        Dois dos mais modernos dicionários da língua portuguesa, que são o Aurélio século XXI e o Michaelis registram remodelagem e remodelamento com remissão para remodelação, o que demonstra preferência por este último termo, que eles definem como o ato ou efeito de remodelar, cujo significado é o de "refazer com modificações profundas".[1] [2]
        Como termo médico, remodelação, remodelagem e remodelamento foram introduzidos na literatura médica brasileira como tradução do inglês remodeling, o qual já vinha sendo usado para expressar um fenômeno fisiológico do osso, que consiste na reabsorção e deposição simultâneas de tecido ósseo, em equilíbrio dinâmico. Este equilíbrio pode alterar-se em determinadas condições ou doenças que afetam o osso e que têm sido objeto de investigação em patologia óssea.[3]
        O sentido genérico de remodeling em inglês é o mesmo de remodelação, remodelagem ou remodelamento, em português, ou seja, o de refazer, reconstruir, criar um novo modelo com o fim de proporcionar melhor qualidade ou desempenho. O dicionário de Webster considera to remodel equivalente ao verbo to reconstruct e dá como sinônimo o verbo to mend. Neste último verbo registra várias acepções, dentre as quais as seguintes:

  1. to remove or eliminate the defects of (corrigir)
  2. to make right, to improve (endireitar, melhorar)
  3. to put into good shape or working order again (reformar, consertar)
  4. to put in better order (reorganizar)
  5. to restore the health (curar)
  6. to supply the deficiency or loss of (reparar)
  7. Dá ainda como sinônimos de mend: repair, patch, rebuild, remodel [4]
        Vemos, assim, que a idéia central, tanto em inglês como em português, é de que remodelar tem a conotação de refazer para melhor, de introduzir modificações visando corrigir falhas, defeitos ou deficiências. Pressupõe um agente que atua segundo um propósito definido.
        Na literatura médica brasileira, os termos remodelação, remodelagem e remodelamento têm sido usados em seu exato significado em cirurgia plástica, especialmente em relação à cirurgia estética facial [5], em odontologia, na especialidade de ortodontia [6] e na sua interface com a osteologia, [7] em ortopedia [8] e em saúde pública. [9]
        Em cardiologia, entretanto, o termo remodeling e suas traduções vernáculas foram introduzidos com um novo sentido, para expressar as alterações que ocorrem no coração como forma de adaptação a uma condição patológica.
        O conceito de remodelação em cardiologia acha-se bem expresso no livro Doenças do Coração, de Celmo Porto, quando se refere à remodelação ventricular: "Logo após sofrer uma agressão, o coração passa por uma série de mudanças morfológicas e ultra-estruturais, podendo evoluir, dependendo da extensão e/ou da duração da lesão, para dilatação, hipertrofia e alteração de sua configuração geométrica, principalmente do ventrículo esquerdo. Este processo, denominado de remodelação ventricular, vem despertando crescente atenção pela sua importância em diversas situações, como nas sobrecargas hemodinâmicas (hipertensão arterial, valvopatias, por exemplo), e após infarto agudo do miocárdio (Mitchell, 1992)."[10]
        Mady, quem usa remodelagem em lugar de remodelação define remodelagem como sendo a "alteração estrutural ou bioquímica dos compartimentos muscular, vascular ou intersticial do miocárdio" [11]
        Em cardiologia a palavra remodeling aparece pela primeira vez nos arquivos MEDLINE da National Library of Medicine, em 1979, em uma conferência com o título The pulmonary circulation: remodeling in growth and disease.[12]No mesmo ano um segundo artigo é indexado: Mitral valvuloplasty based on remodeling of the annulus using the prosthetic Carpentier ring [13] Na década de 80 foram indexados 72 artigos e na década de 90 nada menos que 1.335 artigos em que o termo remodeling foi usado referindo-se às modificações sofridas pelo coração para adaptar-se a situações patológicas como sobrecarga ventricular, insuficiência cardíaca congestiva e infarto agudo do miocárdio.[14]
        Em algumas intervenções de cirurgia cardiovascular, como a ventriculectomia parcial, correção de malformações ou de defeitos adquiridos, o cirurgião realmente remodela o coração, estando plenamente justificado o uso dos termos remodelação, remodelagem ou remodelamento.[15]
        O que nos parece estranho é empregar-se a mesma denominação para os fenômenos que ocorrem naturalmente como mecanismos de adaptação às diversas condições patológicas que afetam o coração.
        Com esta nova acepção que se conferiu à palavra remodeling têm sido descritas todas as alterações de natureza anatômica, macroscópica e microscópica, subcelular e metabólica que ocorrem em consequência do dano miocárdico. Parece evidente que o termo remodeling não foi uma escolha feliz, assim como a sua tradução vernácula por remodelação, remodelagem ou remodelamento.
        Como bem expressou Mady, "trata-se de mais um neologismo aplicado em nossa língua de forma duvidosa". "Usamos o termo remodelagem sem que haja uma explicação lógica.".[10]
        Melhor teria sido usar-se uma expressão mais apropriada como alteração anatomofisiológica ou adaptação morfofuncional.
        Acreditamos, entretanto, que é tarde para mudar. A força hegemônica do inglês na linguagem médica e as traduções literais que se fazem dos neologismos importados já selaram a nova acepção de remodelação, remodelagem ou remodelamento na terminologia cardiológica e certamente os léxicos vão registrar esta nova acepção nas próximas edições.
 

Referências bibliográficas

1. FERREIRA, A B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 3.ed.. Rio de Janeiro, Ed.Nova Fronteira, 1999
2. MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998.
3. SIM, F.H., KELLY, P.J. – Relationship of bone remodeling, oxygen consumption, and blood flow in bone. Bone Joint Sukrg. Am. 52: 1377-1389, 1970.
4. WEBSTER’S THIRD NEW INTERNATIONAL DICTIONARY. Chicago, Encyclopedia Britannica Inc., 1966.
5. TOLEDO, L.S., BARBOSA, L.P.A. – Remodelagem dos supercílios; um aspecto importante da ritidoplastia. An. Soc. Bras. Cir. Plástica 24-25 set. 1983, p.29-31.
6. BRITTO, A.K. – Plano de remodelação dentária interproximal. Rev. Virtual de Ortodontia: http://www.medisa.pt/tvo/artigos/remod/htm- 5 de setembro de 2001
7. ALVES, F.A. – A remodelação óssea e estética facial associadas à movimentação ortodôntica e funcional. J. Bras. Ortodontia Ortop. Maxilar. 1:41-64, 1996.
8. NUNES, A.B., TAMER, D.R., VALCANAIA, T.C. - Potencial osteogênico do transplante autógeno de osso imaturo. Rev. Bras. Cir. Implant. 4:19-23, 1997
9. LOPES, M.B. – Práticas e remodelação do Rio de Janeiro - 1890/1920. Tese de mestrado. Universidade Estadual de Campinas, 1988.
10. OLIVEIRA, J.G., PORTO, G.G. – Insuficiência cardíaca. In PORTO, C.C.: Doenças do coração. Rio de Janeiro. Ed. Guanabara Koogan, 2000, p. 194.
11. MADY, C. – Remodelagem, remodelação, remodelamento. Arq. Bras. Cardiol. 66: 51-53, 1996.
12. REID, L.M. – The pulmonary circulation: remodeling in growth and disease. The 1978 J. Burns Amberson lecture. Am. Rev. Respir. Dis. 119: 516-518, 1979.
13. KOYANAGI, J. – Mitral vavuloplasty based on remodeling of the annulus using the prosthetic Carpentier ring. Nippon Kyobu Geka Gakkai Zasshi 27:516-518, 1979.
13. INTERNET - http://research.bmn.com/medline - 02 de setembro de 2001
14. ALMEIDA, R.M.S., LIMA Jr., J.D., BASTOS, L.C., CARVALHO, C.T., LOURES, D.R. Remodelamento do ventrículo esquerdo pela técnica da endoventriculoplastia com exclusão septal: experiência inicial. Rev. Bras. Cir. Cardiovasc. 15: 1302-1307, 2000. 

Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

10/09/2004.