LINGUAGEM MÉDICA

RETARDO, RETARDE

        Do verbo latino retardare nos veio retardar e do substantivo retardatio,onis, derivam retardamento, retardação e retardança, que já encontramos averbados nos léxicos mais antigos da língua portuguesa. Vieira registra pela primeira vez o termo retardo, dando-o como derivado do francês rétard, e faz a seguinte observação: "Vid. Retardamento, termo mais usado e mais próprio da língua portuguesa".[1]  A origem francesa do termo é endossada por Nascentes [2] e A. G. Cunha.[3]

        A palavra retardo tem duas acepções em português. A primeira delas, mais geral, equivale a retardamento, demora, atraso, e encontra-se averbada nos léxicos de Cândido de Figueiredo e de Moraes Silva, 10a. ed., os quais citam abonações de escritores clássicos como Fialho e Melo Moraes Filho.[4][5] A segunda acepção, de uso restrito à musica, refere-se ao prolongamento do som de um acorde no seguinte.

        Os dicionários de Laudelino Freire [6] e Aulete-Garcia [7] abonam apenas esta última acepção, enquanto outros léxicos, como o de Aurélio Ferreira [8] e o de Houaiss-Villar [9] estendem o uso do termo à psiquiatria, como sinônimo de retardamento.

        É oportuno mencionar que rétard, em francês, e retardo em espanhol, expressam atraso, demora, de um modo geral, não se restringindo à música.

        O termo retarde acha-se registrado como brasileirismo nos léxicos de Cândido de Figueiredo, [4] Morais-Siva, 10a . ed. [5] e Aulete-Garcia. [7] Abonam o vocábulo como derivado de retardar os dicionários Aurélio [8], Michaelis [10] e o de Houaiss - Villar. [9] Deixam de consignar o vocábulo Nascentes [11], Silveira Bueno [12], Séguier [13] e A. G. Cunha. [3]

        Vemos, por conseguinte, que retardo e retarde, embora tenham origem comum, têm sido usados em acepções diferentes.

        Mangabeira-Albernaz condena o uso de retardo, que tacha de galicismo irritante e acrescenta: "Retardo só existe em português como termo técnico de música".[14]

        A verdade é que a terminologia médica atualmente em uso muito deve à medicina francesa e à influência que a mesma exerceu em nossa cultura. Mesmo admitindo-se a origem francesa do termo retardo, não há por que condená-lo, visto que o mesmo foi corretamente adaptado ao português e já se encontra integrado na terminologia médica, nas expressões retardo mental, retardo de crescimento, retardo de esvaziamento, etc.
   

Referências bibliográficas

1. VIEIRA, Frei Domingos - Grande dicionário português ou Tesouro da língua portuguesa. Porto, Ernesto Chardron e Bartholomeu H. de Moraes, 1871-1874.
2. NASCENTES, Antenor - Dicionario etimológico resumido. Rio de Janeiro, INL, 1966.
3. CUNHA, Antônio Geraldo da - Dicionário etimológico. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982.
4. FIGUEIREDO, Cândido de - Dicionário da língua portuguesa, 13.ed. Lisboa, Liv. Bertrand, 1949.
5. MORAIS SILVA, Antonio de - Grande dicionário da língua portuguesa, 10.ed. (12 vol.), Lisboa, Confluência, 1949-1959.
6. FREIRE, Laudelino - Grande e novíssimo dicionário da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, José Olympio Ed., 1957.
7. AULETE, F.J. Caldas , GARCIA, Hamilcar de - Dicionário contemporâneo da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Delta, 1980.
8. FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda - Novo dicionário da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1999.
9. HOUAISS, Antônio, VILLAR, Mauro de Salles – Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
10. MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998.
11. NASCENTES, Antenor - Dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro. Academia Brasileira de Letras, 1961-1967.
12. BUENO, Francisco da Silveira - Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa. São Paulo, Ed. Saraiva, 1963.
13. SÉGUIER, Jaime de - Dicionário prático ilustrado. Porto, Lello Irmão Ed., 1981.
14. MANGABEIRA-ALBERNAZ, Paulo - Questões de linguagem médica. Rio de Janeiro, Liv. Atheneu, 1944, p. 158. 

Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

10/9/2004.