LINGUAGEM MÉDICA
 

SECRETAR, SEGREGAR

        Os puristas da língua de longa data condenam o uso do verbo secretar. Mário Barreto é incisivo: "Aos médicos e outros homens de ciência, que não sabem português, e traduzem do francês, é muito comum ouvir-se-lhes o emprego do verbo secretar. Diz-se segregar, senhores. Secretar é verbo irracional e bárbaro. O que temos em língua pátria é segregar, e não precisamos de outro verbo".[1]

        Plácido Barbosa propõe secrecionar como variante de segregar. "Segregar no sentido de "sécréter" pode-se considerar como já consagrado na boa linguagem médica"... "Entretanto, mencionamos que secrecionar, verbo que estamos autorizados a derivar de secreção, traduz também muito portuguesmente e muito propriamente o termo francês sécréter".[2]

        Oliveira julga suficiente o verbo segregar para expressar a função glandular de produzir secreção. Após citar vários exemplos literários com o emprego de segregar no sentido de separar, isolar pessoas e objetos, escreve: "O termo é tomado comparativamente. De fato os indivíduos que se isolam (segregam) da sociedade, voluntária ou involuntariamente, podem ser, de modo geral, comparados ao que faz o organismo com os produtos que isola (segrega) de si mesmo. Os que são segregados para o exterior, bile e outros mais, são de secreção externa; os que são lançados no interior, meio interno, são de secreção interna, tais como a insulina, além de muitos outros".[3]

        Pedro Pinto averba secrecionar como neologismo, sinônimo de segregar e diz que secretar empregado no mesmo sentido, "passa por galicismo evitável".[4] Vittorio Bergo é mais tolerante e contenta-se em rotular o verbo secretar como "barbarismo escusado, em vez de segregar".[5] Dos léxicos mais antigos, somente o de Lacerda averba secretar, com a indicação de tratar-se de termo novo e sem referência etimológica. Define secretar como "operar, fazer a secreção, a separação".[6] Nascentes (1961) não consigna o verbo secretar, porém o utiliza no verbete secreção, que define como "ato ou efeito de secretar".[7] Os dicionários mais recentes, como os de Aulete-Garcia [8], Aurélio Ferreira [9] e o Michaelis[10] registram secretar, porém com remissão para segregar, o que denota não somente sinonímia como preferência pelo segundo termo. Houaiss [11} averba secretar como sinônimo de segregar, excretar, expelir, o que não condiz com os atuais conceitos fisiológicos sobre o sentido de cada um desses termos. Somente Silveira Bueno incorporou sem restrições o verbo secretar ao léxico português. "Secretar - v. t. Produzir secreções, elaborar substâncias que passam depois nos líquidos intersticiais e circulantes do organismo. Escorrer, produzir serosidades, purgações. Do Lat. secretum, part. pass. de secernere, separar, segregar e o suf. ar".[12]

        Do ponto de vista etimológico tanto segregar como secretar exprimem a idéia de separação. Segregar deriva do latim segregare, que significa separar, apartar, afastar, isolar. O substantivo correspondente segregatio, onis, deu em português segregação. Secretar procede do francês sécréter, cujo primeiro registro se encontra no Dicionário da Academia Francesa, edição de 1798.[13] Bloch e Wartburg dão o verbo sécréter como derivado de sécrétion, do latim secretio, onis,que corresponde ao verbo secernere, pôr à parte, separar.[14]

        Vemos, assim, que tanto segregar como secretar tinham originalmente o mesmo sentido de pôr à parte, separar, isolar. Houve, entretanto, uma evolução semântica na acepção do verbo secretar em decorrência do progresso das ciências biológicas; secretar já não traduz apenas a separação de algo preexistente na glândula ou no órgão secretor, mas a elaboração de uma substância nova por células especializadas. Já em 1873, Littré e Robin escreviam: "Malgrado a etimologia, secreção não consiste em uma simples separação, visto que os humores produzidos não existem pré-formados no sangue, sendo elaborados seletivamente".[15]

        Essa dualidade de verbos é encontrada tanto em português como em outras línguas, aparentemente com a finalidade de melhor expressar o fenômeno da secreção, distinguindo-a da segregação, ou simples separação. Assim, temos em francês sécréter e ségréger, em inglês to secrete e to segregate, em italiano secernere e segregare, e em espanhol, tal como em português, secretar e segregar.

        O Dicionário de la Língua Española, da Real Academia Española deriva secretar do latim secretum e dá para o verbo a seguinte acepção: "Fisiol. - salir de las glándulas materias elaboradas por ellas y que el organismo utiliza en el ejercicio de alguna función, como el jugo gástrico".[16]

        Por conseguinte, não há justificativa para se combater o verbo secretar, hoje de uso universal e que se tornou um termo necessário para expressar o fenômeno biológico da secreção e adquiriu um significado próprio, que o diferencia de segregar.  Além das mencionadas razões de ordem científica, ainda teríamos outra de natureza linguística. O substantivo segregação jamais foi empregado para indicar a função ou o produto da atividade glandular, e sim secreção. Secreção, secretor, secretório sempre foram aceitos e usados como termos corretos e bem formados. Por que, então, não incluir entre eles o verbo secretar?
 

Referências bibliográficas

1. BARRETO, M. - Fatos da língua portuguesa, 3.ed. fac-similar. Rio de Janeiro, INL-Presença, 1982, p. 188.
2. BARBOSA, P. - Dicionário de terminologia médica portuguesa. Rio de Janeiro, Liv. Francisco Alves, 1917.
3. OLIVEIRA, J. - Medicina e gramática. Rio de Janeiro, 1949, p. 319.
4. PINTO, P.A. - Dicionário de termos médicos, 8. ed. Rio de Janeiro, Ed. Científica, 1962.
5. BERGO, V. - Erros e dúvidas de linguagem, 5.ed. Juiz de Fora, Ed. Lar Católico, 1959, p. 348.
6. LACERDA, J.M.A.A.C. - Dicionário enciclopédico ou Novo dicionário da língua portuguesa. Lisboa, F. Arthur da Silva, 1874.
7. NASCENTES, A. - Dicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro. Academia Brasileira de Letras, 1961-1967.
8. AULETE, F.J.C., GARCIA, H. - Dicionário contemporâneo da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Delta, 1980.
9. FERREIRA, A.B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1999.
10. MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998.
11. HOUAISS, A., VILLAR, – Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001
12. BUENO, F.S. - Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa. São Paulo, Ed. Saraiva, 1963.
13. DAUZAT, A., DUBOIS, MITTERRAND, H. - Nouveau dictionnaire étymologique et historique, 3.ed. Paris, Larousse, 1964.
14. BLOCH, O., VON WARTBURG, W. - Dictionnaire étymologique de la langue française, 7.ed. Paris, Presses Universitaires de France, 1986.
15. LITTRÉ, E. , ROBIN, Ch. - Dictionnaire de médecine, de chirurgie, de pharmacie, de l’art vetérinaire et des sciences qui s'y rapportent, 13.ed. Paris, Baillière et Fils, 1873.
16. REAL ACADEMIA ESPAÑOLA - Diccionario de la lengua española, 19.ed. Madrid, 1970.

 Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

10/9/2004.