LINGUAGEM MÉDICA
 

ÍNDICE E SUMÁRIO

        Os primeiros escritores portugueses utilizaram a expressão Tabuada da matéria ou Tábua da matéria para indicar as principais partes ou capítulos de uma obra e sua localização no texto, segundo a numeração das páginas. Encontramos em francês a expressão equivalente Table des matières, utilizada com o mesmo fim. Em inglês havia a expressão Table of contents, a qual, obedecendo ao espírito sintético desta língua simplificou-se para Contents, atualmente em uso.

        A palavra Índice, derivada do latim Index, icis, de há muito vem sendo usada em substituição à Tabuada da matéria ou Tábua da matéria e, nesta acepção, a encontramos averbada nos melhores léxicos da língua portuguesa.O termo Sumário, por sua vez, há muito vem sendo empregado para designar um pequeno resumo que se oferece ao leitor, quer no início da obra, quer no início de cada capítulo, com o fim de informá-lo sobre o conteúdo do texto. Sumário provém do latim Summarium, derivado de Summa, "a parte mais importante, a parte essencial". Portanto, as duas palavra, Índice e Sumário são antigas e de uso corrente em português; a primeira para indicar a relação da matéria e sua localização no texto, e a segunda para designar um pequeno resumo destinado a orientar o leitor.

        É possível que a confusão entre as duas tenha surgido em conseqüência da apresentação de sumários tão resumidos a ponto de conterem apenas os títulos dos artigos ou dos capítulos. O próximo passo para dar ao Sumário a feição de um Índice seria dispor os assuntos em linhas separadas. Este elo intermediário da metamorfose pode ser encontrado em algumas publicações periódicas. A partir daí, bastaria colocar o número da página à frente de cada assunto para transformar o Sumário em Índice. Só assim podemos compreender o emprego da palavra Sumário em lugar de Índice.

        O fato teria ocorrido primeiramente em francês, segundo o Prof. Idel Becker [1], e a seguir em português. O equívoco semântico, portanto, não é exclusivo da língua portuguesa.O que se não entende é que a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) tenha encampado tal distorção e oficializado Sumário com o sentido de Índice.

        Em seu livro Problemas de Comunicação da Informação Científica, o Prof. Nery da Fonseca, renomado especialista desta área e Professor da Faculdade de Estudos Sociais Aplicados da Universidade de Brasília, procura defender a posição da ABNT e afirma que a referida Associação fora assessorada pelo Prof. Antônio Houaiss, reconhecida autoridade em Linguística e questões de vernáculo.[2]

        Segundo consulta que fizemos em carta ao Prof. Antônio Houaiss, a questão não é propriamente de linguística e sim de normatização, visto que a ABNT teve por objetivo evitar a duplicidade de índices, deixando a palavra Índice para nomear apenas o Índice alfabético, habitualmente colocado ao final do livro (comunicação pessoal). Para o grande enciclopedista, membro da Academia Brasileira de Letras, filólogo e autor da importante obra Elementos de Bibliologia, os "índices, stricto sensu, são sempre alfabéticos, enquanto as tábuas só serão por acaso, porque o princípio que as informa é o da estruturação orgânica da obra"... " Todo outro tipo de remissão-localização que não for ordenado alfabeticamente... merecerá outro nome, de preferência em português (inclusive por sua tradição) tábua."  No referido livro, o Prof. Houaiss preferiu a forma clássica Tábua da matéria em lugar de Índice ou Sumário.[3] Seguindo o exemplo do grande mestre, adotamos também Tábua da Matéria, em lugar de Sumário, na segunda e terceira edições do nosso livro Linguagem Médica. [4]

        A decisão da ABNT, em lugar de colaborar para a desejável uniformidade das publicações biomédicas brasileiras, especialmente dos periódicos, veio, ao contrário, propiciar maiores divergências. Em um levantamento que procedemos em 1981, na Biblioteca Central da Universidade Federal de Goiás, com o auxílio do bibliotecário José Vanderlei Gouveia, tivemos oportunidade de compulsar 184 periódicos da área biomédica editados no Brasil e publicados durante os 10 anos anteriores.

        Tomando por base o número mais recente disponível de cada periódico, verificamos que 84 (45,7%) adotaram Sumário; 71 (38,6%) continuam usando Índice; 11 (6,0%) preferem Conteúdo, e 17 (9,2%) apresentam a matéria sem qualquer designação. Um periódico usa Roteiro e outro usa simultaneamente Sumário e Índice, cada um em seu exato sentido. Excluindo-se desse total 29 periódicos das áreas de Farmácia, Odontologia, Enfermagem e Ciências Biológicas, e analisando os 155 periódicos restantes, de interesse estritamente médico, encontramos os seguintes números: Índice - 66 (42,6%), Sumário - 65 (41,9%), Conteúdo - 9 (5,8%), Roteiro - 1 (0,6%), sem designação 14 (9,0%). Estes dados parecem indicar maior resistência dos editores da área médica à recomendação da ABNT.

        A confusão se torna ainda maior quando se trata de um índice bilingue ou trilingue e o tradutor, pouco afeito à questão, traduz a palavra Sumário por Summary, em inglês, e por Resumé, em francês, como se vê em algumas revistas médicas. Summary, em inglês, e Resumé, em francês, são as versões corretas de Sumário em português, em sua verdadeira acepção, e não em seu novo significado conferido pela NB 85 da Associação Brasileira de Normas Técnicas.

        É óbvio que o sentido das palavras jamais pode ser fixado por decreto. Uma língua forma-se com o passar do tempo, lentamente, e as palavras adquirem um significado, exprimem uma idéia, que só o tempo e a tradição podem modificar.

Referências bibliográficas

1. BECKER, Idel - Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil. São Paulo, Liv. Nobel, 1968, p 271-280.
2. FONSECA, N. - Problemas de comunicação da informação científica. Brasília, Thesaurus, 1973, p. 95-100.
3. HOUAISS, A. - Elementos de bibliologia. Rio de Janeiro, INL, p. XVII, 1967
4. REZENDE, J.M. – Linguagem Médica, 2. ed. Goiânia, CEGRAF, Universidade Federal de Goiás, 1998.
   

Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

10/9/2004.