LINGUAGEM MÉDICA
 

TIMO, LIPOTÍMIA

       
       
Há em grego duas palavras muito semelhantes: [1]
  •   Thýmos – planta odorífera do gênero Thymus, conhecida popularmente por tomilho.
  •   Thymós – alma, espírito, ânimo, vida.
         De ambas procedem termos médicos que se assemelham, gerando certa confusão quanto à sua origem e significado.
       Hipócrates e Galeno usaram a palavra thýmos como sinônimo de excrescência verrucosa, por sua semelhança com a inflorescência do tomilho. No mesmo sentido, Aetius de Amida denominou thýmos a um tumor vulvo-vaginal com a aparência de amora madura. Rufo de Efesus (séc. I d.C.), em seu livro “Nomes das diferentes partes do corpo humano” referiu-se à glândula, “também chamada thýmos, que vai da extremidade superior do coração, recobrindo a sétima vértebra cervical, até a extremidade da traqueia, atrás do pulmão, não sendo visível em todos os indivíduos”. Supõe-se que a denominação da glândula também se originou de seu aspecto granuloso. [2,3].
     A descrição anatômica completa da glândula foi feita por Berengarius da  Carpi em 1524 e Vesalius, em sua obra memorável De humanis corporis fabrica, mencionou-a como glândula.[2]
     O timo é pouco conhecido dos leigos, não tendo recebido nome popular. Tratando-se de reses, é chamado nos matadouros de moleja [4], termo que também designa o pâncreas desses animais. Moleja é ainda usado como sinônimo de fressuras e miúdos de animais, especialmente de aves.
      Em inglês, o timo, assim como o pâncreas de vitela, quando preparado como alimento, é conhecido por sweetbread, [5] sendo considerado fina iguaria. O correspondente em francês a sweetbread é ris de veau e, em alemão, kalbsmilch.[6]
     A função do timo permaneceu desconhecida até a década de 1950, quando foi reconhecido como um órgão produtor de linfócitos, indispensável para o desenvolvimento do sistema normal de imunidade.[7]
     Do nome da glândula formaram-se os cognatos tímico, timoma timócito, timina, timosina, timectomia, timopexia, timotrofico etc.
   A outra palavra homônima thymós, com acento na última sílaba e com o sentido de alma, espírito, ânimo, vida, deu origem a vários compostos do vocabulário médico, como atimia, catatimia, distimia, esquizotimia, eutimia, , hipertimia, lipotimia etc. O dicionário Houaiss (4) registra 16 vocábulos com a terminação em –timia.Tais termos nada têm a ver com o timo (glândula), e sim com o estado de ânimo da pessoa.
     A confusão entre os dois radicais gregos e a proximidade da glândula com o coração levou à crença, no passado, de que o timo fosse a sede da alma. [8]
     Lipotimia, no sentido de síncope, desmaio (de leipo, cessar, abandonar), foi primeiramente empregado por Hipócrates em seu aforismo 1.23 [9]. Os léxicos da língua portuguesa, seguindo a regra da formação das palavras diretamente do grego, dão lipotimia como paroxítona; todavia, ao contrário dos demais compostos, lipotimia passou antes pelo latim, tornando-se proparoxítona, o que justifica o uso, já consagrado em nosso idioma, da prosódia latina – lipotímia.
     Há ainda outras palavras que se escrevem em nosso idioma com o radical timo-, de origem diversa das que foram citadas no início destes comentários, as quais não serão aqui analisadas por não se relacionarem com o objetivo deste artigo.

 

Referências bibliográficas

1. BAILLY, A. Dictionnaire grec-français, 16. ed. Paris, Lib. Hachette, 1950.

2. SKINNER, H.A. The origin of medical terms, 2.ed. Baltimore, Williams , Wilkins, 1961.
3. MARCOVECCHIO, E. Dizionario etimologico storico dei termini medici. Firenze, Ed. Festina Lente, 1993.

4. HOUAISS, A., VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.

5. OXFORD ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 3 .ed. Oxford, Claredon Press, 1978.

6. VEILLON, E. Medical dictionary. Barcelona, Editorial Labor, 1950.
7. LIMA, F.A., CARNEIRO-SAMPAIO, M. O papel do timo no desenvolvimento do sistema immune.Pediatria (São Paulo): 29(11):33-42, 2007.
8. HAUBRICH, W.S. Medical meanings. A glossary of word origins. Philadelphia, Am.College of Physicians, 1997.
9. HIPPOCRATES. Aphorisms. The Loeb Classical Library, vol. IV, p.108. Cambridge, Harvard University Press, 1967.

 
Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

25/10/2009