LINGUAGEM MÉDICA

TRANSTORNO. DISTÚRBIO. DISFUNÇÃO. DESARRANJO.
DESORDEM. PERTURBAÇÃO.

        Os termos acima têm sido utilizados em linguagem médica para expressar uma alteração da normalidade, seja de natureza estrutural, funcional ou comportamental.

        Embora tenham significados equivalentes, não devem ser usados aleatoriamente. O seu emprego deve obedecer a algum critério, embasado na tradição, na nomenclatura oficial de determinadas especialidades médicas e, especialmente, na orientação de instituições normatizadoras da terminologia médica.

        Para análise do uso apropriado e da ocorrência de cada um dos termos citados, tomamos como fontes de referência a 10a. edição da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas relacionados à Saúde, da Organização Pan-americana e Organização Mundial da Saúde (CID-10),1 os Descritores em Ciências da Saúde, da Biblioteca Regional de Medicina (BIREME),2 e os trabalhos em português indexados por título na base de dados da Literatura latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS).3 O quadro 1 apresenta o número de vezes em que cada termo aparece nas fontes citadas.

QUADRO 1

TERMO CID-10        
DESCRITORES LILACS       
Transtorno 965 67
499
Distúrbio
117
4
140
Disfunção 65 15 456
Desarranjo
38 0 4
Desordem 0 0 30
Perturbação 0 0 7

                                                                                                                                                                                 

        Vemos que o maior número de itens para codificação na CID-10 é Transtorno, o que se deve, em grande parte, à terminologia psiquiátrica. Transtorno é um deverbal regressivo do verbo Transtornar, que já possuía a acepção de alteração da personalidade, conforme se verifica em dicionários do século XIX.4,5

        Seguem-se, com menor número de itens, Distúrbio, Disfunção e Desarranjo. Distúrbio tem um significado mais amplo que Disfunção por abranger alterações de natureza estrutural e funcional, ao contrário de Disfunção, que se refere unicamente aos desvios da função de um órgão ou sistema.

        É digno de nota, nos descritores da BIREME, a ausência do termo Desarranjo e a restrição a Distúrbio, utilizado apenas em 4 condições, a saber:

        Distúrbio adquirido de leitura (Sin. dislexia).
        Distúrbio convulsivo (Sin. epilepsia)
        Distúrbio do paladar
        Distúrbio osteomuscular relacionado ao trabalho

        Os termos Desordem e Perturbação não constam da CID-10 e, tampouco, dos Descritores da BIREME.

        Nos trabalhos indexados por título na base de dados do programa LILACS, o termo Transtorno mantém-se na dianteira, com 499 ocorrências, seguido por Disfunção, com 456, e Distúrbio, com 140 ocorrências. O número de artigos indexados com os outros termos é irrelevante. Desordem tem sido empregado principalmente em Odontologia e Otorrinolaringologia, nas expressões "Desordem temporomandibular" e "Desordem crâniomandibular."

        Em face do exposto, fica evidente que os termos mais apropriados à terminologia médica são Transtorno, Distúrbio e Disfunção. Quando empregar um ou outro, vai depender da anormalidade em estudo e da opção do autor, nos casos de sinonímia.

        Os outros três termos devem ser abandonados, especialmente Desordem, que foi introduzido na terminologia médica de nosso idioma por influência do inglês, que usa Disorder como equivalente a Transtorno ou Distúrbio. Como termo médico, Desordem é um falso cognato de Disorder e não deve ser empregado.
 

Referências


1
. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Classificação Estatística |Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde. 10a revisão. São Paulo, Edusp, 1998.
2. BIBLIOTECA VIRTUAL EM SAÚDE. Descritores em Ciências da Saúde. Internet. Disponível
em http://decs.bvs.br/. Consulta em 21/07/2008.
3. LITERATURA LATINO-AMERICANA E DO CARIBE EM CIÊNCIAS DA SAÚDE. Internet.
Disponível em  http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/  Consulta em 21/07/2008.
4. CONSTANCIO, Francisco Solano - Novo dicionário crítico e etimológico da língua portuguesa, 3.ed.,Paris, Angelo Francisco Carneiro, 1845.
5. VIEIRA, Frei Domingos - Grande dicionário português ou Tesouro da língua portuguesa. Porto, Ernesto Chardron e Bartholomeu H. de Moraes, 1871-1874.


Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

21/07/2008