LINGUAGEM MÉDICA

TRICOTOMIA

        Tricotomia é um exemplo típico da chamada forma convergente de uma palavra, ou seja, uma palavra formada a partir de mais de um étimo, o que lhe confere significados distintos. Em português, a palavra tricotomia é formada dos radicais oriundos da língua grega trico + tome + sufixo -ia.

        Em grego há duas palavras muito semelhantes: o advérbio trikha, "em três partes", e o substantivo thriks, trikhós, "cabelo, pêlos".[1,2] Ambas dão origem ao radical trico, em português. Tomo, por sua vez, deriva de tomé, do verbo témno, cortar. Deduz-se, portanto, que tricotomia tanto pode significar "separar, dividir em três partes", como "cortar o cabelo ou os pêlos".

        Na formação das línguas modernas prevaleceu a primeira acepção, cuja datação histórica, em inglês, é de 1610. [3] Em português, o vocábulo foi introduzido em 1877, segundo Houaiss, [4] e em 1881, segundo Cunha, através do francês [5]. Encontrou aplicação em diferentes áreas do saber, como em botânica, matemática, linguística, teologia, sociologia e outras. Em botânica designa especificamente o caule de uma planta que se divide em três galhos e cada galho, por sua vez, em três ramos e, assim, sucessivamente.

        Em outros campos do conhecimento define qualquer situação em que um tema, um objeto, apresenta três componentes, ou é dividido em três partes para melhor compreensão ou análise.

        Tricotomia, como termo próprio da linguagem médica, na acepção de corte de cabelo e de pêlos, não se encontra averbado em dicionários médicos em inglês ou francês. Também não o encontramos em português nos léxicos do século XIX e em outros mais modernos, inclusive o mais completo deles que é o Houaiss [4].

        Encontra-se o seu registro nas duas acepções na 3a. edição do Novo Aurélio [6], no Michaelis [7], no Dicionário de usos do português do Brasil, de Francisco Borba [8] e no Dicionário Escolar da Língua Portuguesa, de Silveira Bueno, editado pelo Ministério da Educação [9]. Nos dois primeiros dicionários citados o termo tricotomia, na acepção de corte de cabelo ou de pêlos, é referido como brasileirismo.

        Em que pese à sua ausência na maioria dos léxicos, tricotomia é já, há algum tempo, termo corrente do vocabulário de enfermagem, nos hospitais, com o significado de raspagem da pele na região a ser operada, como medida de antissepsia no preparo pré-operatório dos doentes.

        Pedro A. Pinto, na 8a edição do seu Dicionário de Termos Médicos, de 1962, adverte que o verdadeiro sentido de tricotomia é o de corte do cabelo ou dos pêlos, e não o de raspagem da pele. Para esta prática propôs o neologismo tricoxisma, do grego xysma, ato de raspar, que não prosperou.[10]

        O fato de o termo tricotomia, na acepção de corte de cabelo ou de pêlos, ser considerado brasileirismo, de uso restrito ao nosso país, não o desmerece, a nosso ver, visto que se trata de um termo etimologicamente correto e que encontra suas raízes no grego clássico, em que já havia o verbo trikhotoméo com duplo sentido: a) cortar o cabelo; b) separar em três partes. [2]

        A literatura médica brasileira contempla 35 artigos indexados pela BIREME no período de 1982 a 2008, nos quais foi usada a palavra tricotomia na acepção de corte de cabelo ou pêlos. Em sete artigos redigidos ou resumidos em inglês, a palavra tricotomia foi adaptada a esse idioma nas formas tricotomy (dois artigos) e trichotomy (cinco artigos). O termo foi utilizado em diferentes situações, referindo-se ao corte do cabelo nos traumatismos cranianos, aos pêlos de animais em experimentos de laboratório (rato, gato, cão) e à raspagem da pele como medida antisséptica pré-operatória.[11]

        A tendência atual é a de abandonar a prática da tricotomia na prevenção das infecções cirúrgicas por falta de comprovação científica de seu benefício.

        Os termos técnicos formados com base em radicais gregos e latinos são patrimônio da atual civilização e não pertencem a nenhum idioma em particular; são de uso universal, com as adaptações morfológicas das palavras às normas próprias de cada língua.

        Estamos habituados a empregar apenas termos importados do primeiro mundo, onde a ciência e a tecnologia são mais avançadas, e relutamos em admitir que possamos também enriquecer o léxico sem cometer deslizes.

Adendo: Recordo-me que, durante o meu curso médico, nas dependências da Faculdade Nacional de Medicina, no Rio de Janeiro, trabalhava um barbeiro, a quem os estudantes chamavam carinhosamente de "Fígaro". Havia um cartaz afixado na parede com o preço da tricotomia em lugar de corte de cabelo.

Referências bibliográficas

1. BAILLY, A. - Dictionnaire grec-français, 16. ed. Paris, Lib. Hachette, 1950.
2. LIDDELL, H.G., SCOTT, R. - A greek-english lexicon, 9.ed., Oxford, Claredon Press, 1983.
3. OXFORD ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 3.ed. Oxford, Claredon Press, 1978.
4. HOUAISS, A., VILLAR, M. S. – Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001
5. CUNHA, A.G. – Dicionário etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira S.A., 1986.
6. FERREIRA, A.B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1999.
7. MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998.
8. BORBA, F.S. – Dicionário de usos do português do Brasil. São Paulo, Editora Ática, 2002.
9. BUENO, F.S. - Dicionário escolar da língua portuguesa, 11.ed. Rio de Janeiro, MEC/FENAME, 1980.
10. PINTO, P.A. - Dicionário de termos médicos, 8. ed. Rio de Janeiro, Ed. Científica, 1962.
11. BIREME. Internet. Disponível em http://bases.bireme.br/cgi-bin/wxislind.exe/iah/online/  Acesso em 2/8/2008.

  Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

3/8/2008