LINGUAGEM MÉDICA
 

TRIPANOSOMA

        Em nota enviada à Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical e publicada na seção "Carta ao Editor"[13], discutimos a questão da grafia da palavra tripanosoma, que vem sendo escrita pelo menos de quatro maneiras diferentes: tripanosoma, tripanossoma, tripanosomo, tripanossomo, ao sabor de preferências pessoais ou de critérios discutíveis das editoras.
        Nessa nota manifestamos a nossa opção por tripanosoma, com um único s e terminação em a. Obviamente, tripanosomíase e outros cognatos seriam também grafados com um único s.
        A questão linguística suscitada pela referida nota foi enriquecida com a manifestação de dois eminentes professores: Carlos Eduardo Tosta [15] e Luis Eduardo M. Quintas.[12] Ambos concordam com a terminação em a, tendo em conta a raiz grega soma com a qual se formou a palavra tripanosoma, porém defendem a duplicação do s para preservar o som sibilante forte.
        Dentre as razões que nos levaram a aceitar a forma tripanosoma com um único s colocamos em primeiro lugar o respeito à tradição da medicina brasileira. É sobre este item que pretendemos discorrer mais extensamente.
        Carlos Chagas, quem descobriu a Tripanosomíase, sempre utilizou um único s em suas publicações. E o seu primeiro trabalho, publicado simultaneamente em português e alemão, em 1909, no vol.1,fasc. II, da revista Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, [5] foi redigido em português de acordo com a ortografia vigente na época, segundo a qual o som de z era sempre representado por esta consoante e não pela letra s, o que comprova que a pronúncia corrente de tripanosoma era realmente de z e não de s. Por esta razão grafou em português, no título do artigo, tripanozomíaze, ao contrário do título em alemão, no qual o nome da nova doença vem escrito com s. Do mesmo modo escreveu no texto apozento, rezide, parazito, pesquiza, etc.
        Modificadas as regras ortográficas, voltou Carlos Chagas a grafar tripanosomíase com i ou y na primeira sílaba e com um único s em lugar de z, conforme se verifica na coletânea de seus trabalhos.[6]
        Em 27 de seus trabalhos, individuais ou em colaboração, em que utilizou no título os termos tripanosoma, tripanosomíase ou tripanosomose sempre o fez com um único s. Assim também procederam seus colaboradores mais diretos como Eurico Villela[7], Magarinos Torres[14] e Evandro Chagas.[8] Seguiram a mesma trilha os pesquisadores dos primeiros 50 anos de estudos sobre a tripanosomíase americana, como se constata na extensa literatura existente.
        Devemos ao Prof. Aluizio Prata e Eurydice Sant’Ana [11] o levantamento da bibliografia sobre a Doença de Chagas referente ao período de 1909 a 1979, ano em que se comemorou o centenário de nascimento de Carlos Chagas. Foram arrolados 5.152 títulos, dos quais 1.647 referentes ao período de 1909 a 1959, ano em que se comemorou o cinquentenário da descoberta da Doença de Chagas.
        Desse total de 1.647 títulos relativos aos primeiros 50 anos de pesquisas sobre a Doença de Chagas, 91 contêm, ou a palavra tripanosoma, ou tripanosomíase, com um único s, e apenas dois com duplo s. E, se não há maior número de referências à tripanosomíase americana, o fato se deve à mudança de nome da doença para o epônimo de Moléstia de Chagas ou Doença de Chagas.
        O I Congresso Internacional sobre a Doença de Chagas, que se realizou no Rio de Janeiro, de 5 a 11 de julho de 1959, reuniu pesquisadores da Doença de Chagas, não somente da América Latina, como de todo o mundo. Foram apresentados relatórios, conferências e comunicações diversas em português, espanhol, inglês e francês. Os Anais desse Congresso compreendem cinco volumes, totalizando 1.886 páginas, com 70 trabalhos de pesquisa redigidos em português.[9] Em 28 dos 70 trabalhos há referência a tripanosoma, tripanosomíase, tripanosomídeos ou tripanosomicida, sendo que 26 utilizaram a forma indicada, com um único s. Um único autor usou tripanossomos (com duplo s) e outro empregou as duas formas.
        Dentre os autores que subscreveram a forma tripanosoma e tripanosomíase com seus cognatos, estão os mais ilustres representantes do Instituto Oswaldo Cruz e de outros grandes centros de pesquisa da Doença de Chagas do País.
        No livro Doença de Chagas, editado pelo Prof. J. Romeu Cançado [3] em 1968, no qual tomaram parte vários colaboradores, a forma tripanosoma, tripanosomíase, tripanosomídeo, com um único s, predomina de modo absoluto, endossada por pesquisadores da maior projeção como Carlos Chagas Filho, Maria Deane, Hertha Meyer, José Ferreira Fernandes, Luis Hildebrando Pereira da Silva, Amilcar Vianna Martins, Aluizio Prata, Zigman Brener, J. Romeu Cançado, Aristóteles Brasil, José Rodrigues da Silva.
        Um único autor, isoladamente, fez uso da forma tripanossomos (com duplo s e terminação em o).
        No livro Trypanosoma cruzi e Doença de Chagas, editado em 1979 por Zigman Brener e Zilton Andrade [2], só encontramos tripanosoma, tripanosomíase e tripanosomose, com um único s, em capítulos escritos por eminentes estudiosos da Doença de Chagas como Zigman Brener, Italo Sherlock, Zilton Andrade, Sonia Andrade, João Carlos Pinto Dias, Mario Camargo, Anis Rassi, J. Romeu Cançado.
        Esta é a tradição da medicina brasileira que devemos respeitar.
        Em matéria de linguagem não há regras que não comportem exceção. Uma postura ortodoxa marcada pela generalização de uma norma é um caminho traiçoeiro. O uso, a tradição, deve pesar tanto ou mais que uma dedução baseada no princípio da analogia.
        A título de ilustração citaremos alguns poucos exemplos que nos são familiares:
        Cirurgia deriva do grego kheír, mão, e, pela regra, deveria ser quirurgia, como em quirodáctilo, quiromancia, quiroplastia, quiropraxia etc.
        Esquistossomose deriva do grego schistós, fendido, que deu origem a xisto, termo de geologia. Por que não dizemos xistossomose? (Aqui se justifica o duplo s porque esta consoante existe nos dois elementos que compõem a palavra).
        As palavras formadas com o sufixo ia diretamente do grego são paroxítonas, diz a regra. E por que, então, o uso consagrou amnésia, biópsia, disúria, oligúria, políúria e tantos outros como proparoxítonos?
        Os puristas da língua continuam defendendo hematia (com t e acento tônico na letra i) em lugar de hemácia, hoje consagrado.
        Os defensores de ceratina, ceratose, hiperceratose, etc., recuam diante da espondilite ancilosante e aceitam anquilosante.
        Se devemos duplicar o s nos compostos oriundos do grego, cujo determinado se inicia por essa consoante, por que não o fazemos diante de compostos como teosofia, logosofia, filosofia?
        Assim, mesmo aceitando-se como regra geral, por razões fonéticas (o que é discutível), a duplicação do s em palavras formadas com o tema grego soma como segundo elemento, nada nos impede de aceitarmos tripanosoma com um único s, como exceção à regra, em respeito à tradição da medicina brasileira.
        E afirmar que ninguém diz tripanosoma (com som de z) é desconhecer a realidade e a história da Doença de Chagas.
        A invenção de escrever tripanossoma e seus cognatos com duplo s é relativamente recente, datando da década de 80, e decorre, a nosso ver, da intromissão dos copidesques das editoras na revisão dos textos originais.
        Um dos primeiros livros de destaque a adotar tripanossomíase com duplo s, de maneira uniforme em todos os capítulos, foi o editado em 1985 por J. Romeu Cançado e Moisés Chuster, [4] dedicado ao estudo da cardiopatia chagásica. E o mais recente é o livro Clínica e terapêutica da Doença de Chagas, editado em 1997 por João Carlos Pinto Dias e José Rodrigues Coura, [10] no qual a tripanosomíase ganhou um s adicional e o tripanosoma foi morfologicamente desfigurado com a denominação de tripanossomo, além de outras "correções" feitas sem conhecimento dos autores. E, ironicamente, este último livro foi publicado pela Editora Fiocruz.
        Desconhecendo, de modo geral, a terminologia específica da área biomédica e a tradição da cultura médica brasileira, os revisores profissionais baseiam-se no dicionário ao seu alcance, quase sempre o Aurélio, e em regras de gramática, para praticar as suas "correções", sentindo-se autorizados a modificar o original sem consultar o autor. E o que é pior: na maioria das vezes o autor não tem sequer a oportunidade de uma revisão tipográfica.
        Para terminar estas considerações, é oportuno citar Idel Becker [15]  em sua tese Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil: "A linguagem é arbitrária e convencional. A convenção sobre termos biomédicos é da exclusiva competência dos profissionais das ciências biomédicas. Na convenção sobre termos biomédicos, deve atentar-se, em primeiro lugar, ao uso da maioria e à tradição".
        É óbvio que a língua é dinâmica e evolui ao longo do tempo, porém as mudanças devem ocorrer naturalmente, promovidas pelos usuários, e não artificialmente nas oficinas das editoras.

Referências bibliográficas

1. BECKER, I. - Nomenclatura biomédica no idioma português do Brasil. São Paulo, Liv. Nobel, 1968,  p. 337
2. BRENER, Z., ANDRADE, Z. (Org.) - Trypanosoma cruzi e Doença de Chagas. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan,1979.
3. CANÇADO, J.R. (Org.) – Doença de Chagas. Belo Horizonte, Imprensa Oficial do. Estado de Minas, 1968.
4. .CANÇADO, J.R., CHUSTER, M. (Org.) Cardiopatia chagásica. Belo Horizonte, Fundação Carlos Chagas de Pesquisa  Médica, 1985.
5. CHAGAS, C. – Nova tripanozomiaze humana. Mem. Inst. Oswaldo Cruz 1(2):159-218, 1909.
6. CHAGAS, C. – Coletânea de trabalhos científicos (Org. Aluizio Prata). Brasília. Editora da Universidade de Brasília, 1981.
7. CHAGAS, C., VILLELA, E.- Forma cardíaca da trypanosomiase americana. Mem. Inst. Oswaldo Cruz 14: 5-61, 1922.
8. CHAGAS, E.- Aspecto comum da trypanosomiase americana. Rev. Clin. 3: 2-8, 1928
9. CONGRESSO INTERNACIONAL SOBRE A DOENÇA DE CHAGAS, I., Rio de Janeiro, 5-11 de julho, 1959. Anais, 5 vol., Of. Gráfica da Universidade do Brasil, 1964.
10. DIAS, J.C.P., COURA, J.R. (Org.) – Clínica e terapêutica da Doença de Chagas. Uma abordagem prática para o clínico geral. Rio de Janeiro, Ed. Fiocruz, 1997.
11. PRATA, A., SANT’ANNA, E. P. de – Bibliografia brasileira sobre Doença de Chagas (1909-1979). Brasília. Editora da Universidade de Brasília, 1983
12. QUINTAS, L.E.M. – Carta ao Editor. É o Trypanosoma cruzi um parasito? Rev. Soc. Bras. Med. Trop. 30:163-164, 1997.
13. REZENDE, J.M. de – Carta ao Editor. Rev. Soc. Bras. Med. Trop. 28: 419-421, 1995.
14. TORRES, C.B.A. – A tripanosomiase americana e sua anatomia pathologica.. F. méd. 25-29, 1923.


Publicado na Revista de Patologia Tropical 26:375-380, 1997

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

1/8/2002