HISTÓRIA DA MEDICINA
 

A VIDA BREVE DE ALGUNS PERSONAGENS FAMOSOS
DA HISTÓRIA DA MEDICINA



Nota de Direito Autoral:  O texto deste artigo foi publicado em 2009  no livro "À sombra do plátano" pela Editora UNIFESP. A reprodução do mesmo por meio impresso ou eletrônico requer autorização prévia da Editora [http://www.fapunifesp.edu.br fone: (11) 3369-4000]


        Na memória da medicina encontramos exemplos de médicos e cientistas que tiveram uma curta existência e que, apesar disso, deixaram seus nomes inscritos na História da Medicina pelo que lograram realizar.
        Escolhemos como exemplos personagens que não chegaram a ultrapassar 40 anos de idade e que tiveram idéias inovadoras, fizeram descobertas importantes, trabalharam arduamente, publicaram obras notáveis ou lutaram com determinação contra a inércia da ciência oficial de sua época.
        Vejamos de modo resumido a vida e a obra de alguns deles:

        Oswald Croll (1580-1609). Médico alemão. Faleceu aos 29 anos. Foi um seguidor entusiasta de Paracelsus e um precursor da homeopatia, aceitando a idéia de que a doença se cura com os medicamentos capazes de provocá-la (similia similibus curantur).Foi, assim, um precursor de Hanemann. Deixou uma obra publicada com o título de Basilica Chymica, editada em Frankfurt em 1608, na qual descreveu várias substâncias químicas usadas como medicamentos, tais como ácido succínico, éter sulfúrico, ácido clorídrico e calomelano.

        Jacob Bontius (1592-1631). Médico holandês. Faleceu aos 39 anos. Estudou em Leyden, recebendo o grau de médico em 1614. Em 1627 ingressou na Companhia das Indias e foi enviado à Batávia. Seus conhecimentos de medicina tropical eram precários e em apenas quatro anos em Java descreveu várias doenças encontradas na colônia holandesa, inclusive o beribéri, assim como a flora e a fauna da região. Sua obra principal De Medicina Indorum foi publicada por seu irmão William Bontius sete anos após a sua morte.

Regnier de Graaf (1641-1673). Médico holandês. Faleceu aos 32 anos. Ainda como estudante, foi o primeiro a obter a secreção pancreática. Através da abertura do duodeno de um cão, conseguiu cateterizar o ducto de Wirsung com a haste
oca de uma pena e obteve suco pancreático puro. Até então desconhecia-se a função do pâncreas, considerado como um apoio para o estômago ou um órgão de convergência de vasos quilíferos. A experiência de Graaf da fístula pancreática só foi repetida por Claude Bernard no século XIX. Estudou posteriormente com detalhes a anatomia dos órgãos sexuais masculinos e femininos e descreveu o fenômeno da ovulação e os folículos ovarianos que contêm os óvulos em fase de maturação, hoje conhecidos como folículos de Graaf, conforme a denominação dada por Haller em 1730.Deixou ainda um tratado sobre clisteres, método terapêutico muito empregado na época.


        John Mayow (1643-1679). Físico inglês. Faleceu aos 36 anos. Robert Boyle, físico inglês de quem Mayow fora discípulo, havia demonstrado que uma vela se apaga e que um camundongo morre na ausência do ar atmosférico.
Admitia-se que o ar atmosférico continha dois componentes importantes: o "ar do fogo" e o "ar vital". Mayow colocou sob a mesma campânula uma vela acesa e um camundongo e verificou que ambos os fatos ocorriam na metade do tempo, o que demonstrava que o "ar do fogo" e o "ar vital" eram um só e único componente gasoso do ar atmosférico. Mayow foi o primeiro a compreender o mecanismo da respiração e a combater a teoria de que o ar inspirado destinava-se a refrigerar o coração. Atribuiu a cor mais vermelha do sangue arterial ao seu maior conteúdo em "ar do fogo". Seus trabalhos foram simplesmente ignorados pelos seus contemporâneos. 


        Giorgio Baglivi (1668-1707). Médico italiano. Faleceu aos 39 anos. Foi um dos criadores da escola iatrofísica, segundo a qual o organismo humano poderia ser esquematizado com base em modelos mecânicos. Assim, o coração poderia ser comparado a uma bomba, o pulmão a um fole, os músculos a alavancas, a mucosa intestinal a peneiras e assim por diante. Considerava, entretanto, a iatrofísica como especulação teórica sem aplicação na prática médica. Era um clínico brilhante e seguia a medicina hipocrática. Dizia que não havia livro mais sábio do que o próprio enfermo e que aquele que sabe diagnosticar sabe tratar. 



Kurt Sprengel (1766-1803). Médico alemão. Faleceu aos 37 anos. Estudou teologia e, a seguir, medicina. Foi um eminente historiador, botânico e professor de medicina em Halle. Reconhecido como um scholar, dominava as línguas semíticas. Sua obra consta de 5 volumes, publicada em alemão, sob o título Versuch einer pragmatischen Geschichte der Arzneikund (Ensaio prático e único sobre a história dos medicamentos), tendo sido traduzida para o francês e o italiano. Garrison considerou-a uma obra rica de informações e sólidos conhecimentos.
 




 M. François Xavier Bichat (1771-1802). Médico francês. Faleceu aos 31 anos. Estudou em Montpelier, Lyon e Paris
e foi médico do Hotel Dieu nos dois últimos anos de sua vida. Profundamente interessado nos problemas da vida e da morte, realizou mais de 600 autópsias e chegava a passar a noite junto dos cadáveres; Escreveu um tratado de anatomia descritiva denominado Anatomie génerale appliquée à la physiologie, em 4 volumes, no qual lançou a idéia dos tecidos na formação dos órgãos. Seu livro Recherches physiologiques sur la vie et la mort teve várias edições e contém um grande número de observações fisiológicas e patológicas. No prefácio da 5. edição, publicado em 1829, assim se expressou Magendie referindo-se à Bichat: " Son esprit observateur, son génie experimental, sa manière lucide de présenter les faits expliquent la grande influence que ce livre a exercé sur l’esprit des physiologistes et des médecins".


Henry Hill Hickman (1800-1830). Médico inglês. Faleceu aos 30 anos incompletos. Desde os tempos de estudante em Edinburgh, Hickman não se conformava com o sofrimento dos doentes durante as intervenções cirúrgicas. Vivia em Ludlow, onde realizou experiências em animais, operando-os sob a ação da inalação do dióxido de nitrogênio. Notou que os animais, sob a ação deste gás, não demonstravam sentir a menor dor durante o ato cirúrgico e teve a idéia de usar o mesmo processo no homem. Para tanto, solicitou permissão à Royal Society, da qual faziam parte Davy e Faraday, que conheciam a ação do dióxido de nitrogênio. Foi nomeada uma comissão para apreciação do assunto e a autorização lhe foi negada. Dirigiu-se, então, à Associação Médica de Londres, onde sua solicitação foi recebida com indiferença e ele foi considerado um visionário. Como última tentativa, em abril de 1828, escreveu ao rei Carlos X, da França, pedindo-lhe que desse a conhecer suas experiências à Academia de Paris. Em sessão especial de 28.9.1828, a Academia, com um único voto favorável do cirurgião Larrey, que servira no exército de Napoleão, pronunciou-se contra, considerando um crime expor o paciente a um risco adicional pela inalação de gás. Velpeau, um dos mais consagrados cirurgiões da França, declarou que considerava uma utopia a cirurgia sem dor. Amargurado, Hickman voltou à Inglaterra e faleceu dois anos depois. A anestesia geral na prática cirúrgica teria de esperar por mais 18 anos, quando foi introduzida por Thomas Morton, no General Massachussets Hospital, em Boston.


        Daniel Carrión (1859-1885). Doutorando de medicina em Lima, Peru. Faleceu aos 26 anos. Duas doenças acometiam a população dos andes peruanos e também do Equador e da Colômbia: a febre de Oroya e a verruga peruana. Havia dúvida se eram duas doenças independentes ou fases distintas de uma mesma enfermidade. Carrión, sextanista do curso médico, convenceu-se de que só havia um meio de resolver a questão: inocular o material da verruga em um voluntário sadio. Decidiu pela auto-experimentação e inoculou em si próprio o material colhido de um jovem que apresentava lesão característica da verruga peruana. Apresentou todos os sintomas da febre de Oroya e faleceu 39 dias após a auto-inoculação.Deste modo, com o sacrifício da própria vida, demonstrou que a febre de Oroya e a verruga peruana eram uma só e mesma doença. Em 1895, Odriozola propôs para a doença o nome de doença de Carrión. Sua etiologia só foi descoberta em 1909 por outro médico peruano, Alberto Barton. O agente causal é uma bactéria que recebeu o nome de Bartonella baciliformis em homenagem ao seu descobridor. Na cidade de Lima há um monumento com a estátua de Daniel Carrión.


        Howard Taylor Ricketts (1871-1910). Médico norte-americano. Faleceu aos 39 anos. Graduou-se em medicina em 1897 e dedicou-se à dermatologia e microbiologia. Seus primeiros estudos referem-se à blastomicose causada pelo fungo
Blstomyces dermatidis ou doença de Gilchrist. A afim de completar sua formação como pesquisador, estagiou na Inglaterra, na Alemanha e na França. Regressando aos EE.UU. foi nomeado professor associado de Patologia e Bacteriologia da Universidade de Chicago. Em 1906 foi encarregado de estudar a febre maculosa das montanhas rochosas no Estado de Montana, onde realizou simultaneamente trabalhos de campo e de laboratório. Descobriu que o transmissor da febre maculosa era uma espécie de carrapato e conseguiu reproduzir experimentalmente a infecção em macacos e cobaias. Em 1909 anunciou a descoberta do microorganismo  causador da doença, que ele julgava fosse um bactéria. Na mesma época foi ao México investigar o tifo epidêmico, ou tifo exantemático, doença semelhante à febre maculosa. Descobriu com seu assistente Russell Wilder que o agente etiológico se transmitia através do piolho (Pediculus corporis) A 3 de março de 1910 faleceu na cidade do México, vítima do tifo exantemático.Seu nome foi imortalizado no nome de Rickettsia proposto por Henrique da Rocha Lima para o novo gênero de microorganismos intermediários entre as bactérias e os vírus. As doenças produzidas por Rickettsias denominam-se ricketsioses.


        Gaspar de Oliveira Vianna (1885-1914). Médico brasileiro. Faleceu aos 29 anos. Natural do Pará, fez o curso de medicina na Faculdade Nacional de Medicina, do Rio de Janeiro. De uma inteligência brilhante, ainda como estudante
destacou-se por seu interesse pela histologia. Sua tese de doutoramento versa sobre "Estrutura da célula de Schwann dos vertebrados", um trabalho de histologia comparada. Em 1909, após a conclusão do curso médico, foi convidado por Oswaldo Cruz para integrar a equipe de Manguinhos como patologista. Uma de suas primeiras tarefas foi a de estudar a anatomia patológica da doença que Carlos Chagas acabara de descobrir em Minas Gerais – a Tripanosomíase americana. Seus estudos sobre o ciclo do Trypanosoma cruzi e sua divisão intracelular se tornaram clássicos. Da tripanosomíase passou à leishmaniose e em 1911 descreveu a Leishmania brasiliensis como espécie diferente da Leishmania tropica, causadora do botão do Oriente. Descobriu o tratamento da leishmaniose pelo tártaro emético em solução a l% por via venosa, que era bem tolerada pelos pacientes. Verificou ainda que o tártaro emético tinha ação idêntica no calazar e no granuloma venéreo. A mortalidade do calazar, que era de 95%, caiu para 5%. Em 1914, aos 29 anos, faleceu de tuberculose miliar disseminada, que contraira durante uma autópsia, tornando-se, ao mesmo tempo, mártir da ciência e benfeitor da humanidade.


        Rosalind Elsie Franklin (1920-1958). Faleceu aos 38 anos. Foi uma das mais brilhantes pesquisadoras inglesas do século XX. Formada em Físico-química em 1941 pela Universidade de Cambridge, dedicou-se aos estudos de cristalografia por raios-X. Realizou inicialmente pesquisas sobre o carvão, no esforço de guerra da Inglaterra na segunda guerra mundial.
No após guerra dedicou-se inteiramente ao estudo da estrutura do DNA trabalhando no King's College, de Londres. Esteve prestes a desvendar a estrutura do DNA e seus achados foram fundamentais para que Francis Crick e James Watson desenvolvessem o modelo de dupla hélice do DNA. Embora utilizando dados e fotografias de raios-X obtidos por Rosalind Franklin, Crick e Watson, não só não a incluiram no artigo original publicado na revista Nature, como omitiram sua decisiva contribuição na elucidação do problema. O mesmo fizeram com outro membro da equipe a que pertencia Rosalind Franklin, Maurice Wilkins, que também havia participado das pesquisas. Nos seus últimos anos de vida, Rosalind Franklin realizou pesquisas sobre o estrutura do RNA viral, as quais trouxeram novos e importantes conhecimentos no campo da biologia molecular. A descoberta da estrutura  do DNA mereceu o prêmio Nobel em 1962, tendo sido contemplados  Francis Crick, James Watson e Maurice Wilkins. Rosalind Franklin, acometida por um câncer, havia falecido em 1958. Em 1968 Watson escreveu um livro "The Double Helix", no qual admitiu ter utilizado os dados e fotografias não publicados de Rosalind Franklin, sem a sua permissão e sem o seu conhecimento. Esta revelação lançou uma sombra na história da mais importante descoberta do século XX e abalou o mérito de Francis Crick e James Watson.
 
 

Fontes bibliográficas

MAJOR, R.H. - A history of medicine. Oxford, Blackwell Scientific Publications, 1954.
FAHREUS, R. – Historia de la medicina. Barcelona, Ed. Gustavo Gili, 1956
BICHAT, M.F.X. – Recherches phyisiologiques sur la vie eat la mort, 5.ed. Paris, Gobon-Béchet Jeune Lib., 1829
ALTMAN, L.K. - Who goes first. The story of self-experimentation in medicine. Berkeley, Univ. Calif. Press, 1998
MORTON, L.T. - A medical bibliography (Garrison and Morton), 4.ed. Hampshire, 1983
FALCÃO, E.C. – Opera omnia de Gaspar Vianna. CNPq e outros., 1962
McGRAYNE, S.B. - Mulheres que ganharam o premio Nobel em Ciências (trad.). São Paulo, Ed. Marco Zero, 1995, p. 317-344. 


Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

01/11/2002 Atualizado em 19/03/2006.