LINGUAGEM MÉDICA
 

VISIBILIZAR, VISUALIZAR

        Podem os dois verbos acima ser empregados indistintamente? São sinônimos?

        Visibilizar provém do adjetivo latino visibilis, e + sufixo -izar. Visualizar deriva de outro adjetivo latino, visualis, e + sufixo -izar. Os mencionados adjetivos latinos evoluíram para visível e visual em português. Visível é tudo aquilo que se pode ver, enquanto visual significa relativo à vista, ao sentido da visão.

        Os dicionários do século passado registram os adjetivos, mas não os verbos deles derivados, o que pressupõe a introdução destes verbos na língua portuguesa em época mais recente. Silveira Bueno[1] admite que visualizar é uma tradução do inglês to visualize, na acepção de "tornar visual, transformar em imagem perceptível pelo espírito ou pela imaginação". O verbo to visualize foi introduzido na língua inglesa com esta acepção em 1817, segundo o Oxford English Dictionary[2].

        O francês usa o substantivo visualisation e o verbo visualiser, cujo significado, segundo se lê no Petit Robert, é "rendre visible (un phénomène qui n’est le pas)"[3] . Manuila e col. consignam duas acepções para visualisation, a saber:

        " 1. Action de rendre visible un phénomène, ou de rendre visible une région du corps, notamment en radiologie à l’aide de produits de contraste".
        " 2. Processus de perception mentale d’une image visuelle (Terme utilisé dans ce sens surtout par les auteurs de langue anglaise) ." [4]

        Na língua inglesa, o verbo to visualize teve o seu significado ampliado conforme documenta o Webster’s Third New International Dictionary. Dentre outras acepções destaca-se a seguinte: "to make (an organ) visible by surgical or roentgenographic visualization." [5]

        Vemos, assim, que tanto o francês como o inglês, que não dispõem de verbo correspondente a visibilizar, utilizam em linguagem médica o verbo equivalente a visualizar para expressar a idéia de tornar visíveis órgãos do corpo humano.

        O eminente linguista e filólogo português Rodrigo de Sá Nogueira julga que visualizar é uma adaptação do francês visualiser e indaga: "por que não teriam os franceses criado o verbo visibiliser? " No tocante à linguagem médica diz Sá Nogueira: "Consta-me que os Radiologistas empregam o verbo visualizar para significar a operação de, por determinados processos, tornar visíveis as partes do corpo que pretendem radiografar. Se assim é, o que deviam dizer é visibilizar, e de modo nenhum visualizar".[6]

        O Novo Aurélio, em sua 2a. edição, mantém a distinção semântica entre os dois verbos e define:
        "Visibilizar. Tornar visível.".
        "Visualizar. Formar ou conceber uma imagem visual (de algo que não se tem ante os olhos no momento)".[7]
        Já na 3a. edição atribui dupla acepção  ao verbo visualizar:
        "Visualizar. 1. Formar ou conceber uma imagem visual que não se tem ante os olhos no momento" 2. Tornar visível mediante manobra ou procedimento. [8]
        Outros dicionários contemporâneos admitem, igualmente, o sentido de "tornar visível" para o verbo visualizar, o que legitima o seu emprego como substituto de visibilizar.[9][10][11]. Houaiss exemplifica com o exame radiológico: "tornar (algo) visível mediante determinado recurso (em radiologia, usa-se de contraste para visualizar certas estruturas de órgãos)". Assim, não há por que tachar de errôneo o emprego de visualizar nos relatórios de exames por imagens.

        Por ser uma palavra mais eufônica e por influência da literatura médica estrangeira é de se prever o uso generalizado no futuro de visualizar em lugar de visibilizar.

Referências bibliográficas

1. BUENO, F.S. - Grande dicionário etimológico-prosódico da língua portuguesa. São Paulo, Ed. Saraiva, 1963.
2. OXFORD ENGLISH DICTIONARY (Shorter), 3.ed. Oxford, Claredon Press, 1978.
3. ROBERT, P. - Dictionnaire alphabétique et analogique de la langue française. Paris, Dictionnaires Le Robert, 1987.
4. MANUILA, A., MANUILA, L., NICOLE, M. , LAMBERT, H. Dictionnaire français de médecine et de biologie. Paris, Masson , Cie., 1970.
5. WEBSTER’S THIRD NEW INTERNATIONAL DICTIONARY. Chicago, Enciclopedia Britanica Inc., 1966.
6. NOGUEIRA, R.S. - Dicionário de erros e problemas de linguagem, 2.ed., Lisboa, Liv. Clássica Editora, 1974.
7. FERREIRA, A.B.H. - Novo dicionário da língua portuguesa, 2.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1986.
8. IDEM, idem, 3.ed. Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1999..
9 MICHAELIS - Moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo, Cia. Melhoramentos, 1998.
10. HOUAISS, A., VILLAR, M.S.-  Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro, Objetiva, 2001.
11. ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA - Dicionário da língua portuguesa contemporânea. Lisboa, Ed. Verbo, 2001.. 


Publicado no livro Linguagem Médica, 3a. ed., Goiânia, AB Editora e Distribuidora de Livros Ltda, 2004..  

Joffre M de Rezende
Prof. Emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás
Membro da Sociedade Brasileira de História da Medicina
e-mail: joffremr@ig.com.br
http://www.jmrezende.com.br

10/9/2004.